Cortés em Chama: “O Sonho de Cortés” transforma Guimarães numa noite inesquecível

Casa cheia, aplausos demorados e o bailarino espanhol a oferecer uma performance intensa e visceral no Multiusos

Joaquín Cortés regressou a Portugal com “O Sonho de Cortés” e brindou Guimarães com uma noite memorável no Multiusos. Considerado um dos maiores ícones da dança flamenca a nível mundial, Cortés trouxe para o palco uma síntese poderosa do virtuosismo técnico e da expressividade que marcam a sua carreira — hoje celebrada tanto pela Companhia Nacional de Ballet de Espanha, onde se formou, como pela companhia que ele próprio fundou.

O espectáculo ofereceu um manto cénico de intensidade dramática: a coreografia de Cortés reapareceu em cenários de luz focada e som vibrante, onde cada compasso serviu para revelar emoções universais — paixão, duelo, êxtase e melancolia — traduzidas com uma clareza corporal raramente vista. Os figurinos, cuidadosamente concebidos, acentuaram o movimento e o contraste entre delicadeza e força, enquanto a direcção musical e os músicos em palco reforçaram a pulsação rítmica que sustentou cada solo e ensemble.

A sala encheu por completo. O público — uma multidão de admiradores e entusiastas da dança — respondeu com uma energia contagiante: aplausos que acompanhavam as estocadas rítmicas, silêncio quase religioso nos momentos mais íntimos e uma ovação de pé no final que prolongou a noite. Vários números arrancaram aplausos no meio da performance, sinal claro de que a conexão entre intérprete e plateia foi imediata e profunda. Em termos cénicos e emotivos, foi, sem dúvida, uma das noites mais marcantes de Cortés em território português.

“O Sonho de Cortés” mostrou também o lado criador do artista: releituras contemporâneas do flamenco que respeitam a raiz do género mas lhe abrem novas janelas expressivas. As sequências de grupo contrastaram com solos de grande risco técnico, e em vários momentos foi possível sentir o público prender a respiração — só depois libertada em manifestações espontâneas de entusiasmo.

Depois do triunfo em Guimarães, o espectáculo segue para Lisboa: o Coliseu dos Recreios recebe Cortés no dia 18 de outubro, prometendo repetir — ou até superar — a intensidade desta noite. Para quem perdeu o Multiusos, fica a certeza de que se aproxima uma oportunidade imperdível: ver ao vivo um artista que, através do movimento, continua a tocar as emoções mais profundas do seu público