Produtividade mais do que duplicou em 30 anos; mão de obra estrangeira já representa 40% e idade média dos agricultores chega aos 59 anos
A CONSULAI, consultora especializada em agribusiness, apresentou o estudo “Evolução do Trabalho na Agricultura em Portugal”, que traça as grandes transformações do setor nas últimas três décadas e aponta os desafios que vão marcar o seu futuro.
Mais Valor com Menos Mão de Obra
A produtividade agrícola mais do que duplicou, mesmo com uma redução expressiva do número de trabalhadores. O volume de mão de obra caiu de mais de 430 mil para cerca de 220 mil trabalhadores a tempo integral, enquanto o valor acrescentado bruto (VAB) do setor atingiu 3.362 milhões de euros em 2023 (num total nacional de 147 mil milhões de euros). A modernização tecnológica e a mecanização explicam este ganho de eficiência.
O emprego agrícola também se transformou: o trabalho familiar caiu mais de 60%, e o trabalho assalariado já representa cerca de 40% do total, segundo dados do INE de 2023.
Dependência de Trabalhadores Estrangeiros
A agricultura é o setor da economia portuguesa mais dependente de mão de obra estrangeira — em 2023, mais de 40% da força de trabalho era estrangeira, um valor que quadruplicou desde 2014. Esta mão de obra é essencial para culturas intensivas e sazonais, assegurando os picos de produção.
Curiosamente, os trabalhadores estrangeiros apresentam níveis de qualificação superiores aos nacionais: 7,5% têm ensino superior, face a 2,7% dos portugueses. Ainda assim, 81,5% dos trabalhadores portugueses no setor só possuem o ensino básico.
Salários Aumentam, Mas Continuam Abaixo da Média
A remuneração média na agricultura cresceu mais de 50% na última década, aproximando-se dos 1.000 euros mensais, mas continua abaixo da média nacional (1.742 euros), o que dificulta a atração de talento jovem e qualificado.
Envelhecimento e Riscos
O envelhecimento da força de trabalho é uma das tendências mais preocupantes: a idade média subiu de 46 anos em 1989 para 59 anos em 2023. Os acidentes de trabalho diminuíram cerca de 20% entre 2014 e 2023, mas a taxa de mortalidade mantém-se elevada.
O estudo identifica fortes assimetrias regionais: o Alentejo concentra 54,7% da área agrícola, mas apenas 11,3% da mão de obra, refletindo um modelo altamente mecanizado. Já o Algarve e o Oeste apresentam produtividades superiores a 5.200 euros por hectare, com maior necessidade de trabalho.
O Agricultor do Futuro e Recomendações
A agricultura está cada vez mais tecnológica, com automação, sensores e inteligência artificial. O estudo aponta sete tendências para os próximos anos, entre elas a dependência estrutural de mão de obra estrangeira, a IA como núcleo da decisão agrícola e o agricultor a tornar-se um operador tecnológico.
A CONSULAI recomenda investir na qualificação da mão de obra, no planeamento estratégico e na automação; assegurar políticas migratórias estáveis; reforçar a formação técnica e digital; e promover a renovação segura do parque de máquinas, adaptando as políticas às realidades regionais. A coordenação entre associações, prestadores de serviços e instituições de ensino será decisiva para aumentar eficiência e qualificação.
O estudo assinala os 25 anos da CONSULAI e baseia-se em dados do INE, Recenseamento Agrícola 2019, Quadros de Pessoal do GEP/MTSSS, Banco de Portugal e Eurostat.



































