Morreu Maricarmen Abascal, a idosa de 87 anos despejada em Madrid que se tornou símbolo da luta pela habitação

Caso da mulher que viveu 70 anos na mesma casa gerou protestos em massa e acabou por precipitar eleições antecipadas em Espanha

Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos que foi despejada da sua casa em Madrid até se chegar a um acordo que lhe permitiria regressar, morreu esta quarta-feira no Hospital Gregorio Marañón. Estava hospitalizada desde 23 de setembro, dia em que foi retirada da casa onde vivia há 70 anos, no bairro do Retiro.

O Sindicato de Inquilinas anunciou a morte em comunicado, lamentando que o acordo “histórico” tenha chegado tarde demais e que a situação fosse “totalmente evitável”. A plataforma prometeu continuar a lutar pelo direito à habitação e contra os especuladores, com a força que Maricarmen lhes ensinou.

A idosa vivia no apartamento desde 1956. O contrato inicial foi assinado apenas pelo pai, porque uma lei franquista impedia a mãe de figurar como titular. Esse detalhe viria a ser decisivo: o contrato já tinha sido transmitido duas vezes, primeiro para a mãe e depois para Maricarmen, após a morte da mãe em 2005, o que esgotava o limite legal. Em 2018, o prédio foi vendido à Renta Corporación e, mais tarde, à Urbagestión, que notificou a inquilina de que o contrato tinha terminado em 2007. Os tribunais deram razão à empresa, já que a segunda transmissão só podia durar dois anos, salvo se o descendente tivesse uma deficiência superior a 65%. Maricarmen tinha uma incapacidade de 50%.

Durante sete anos, resistiu a várias tentativas de despejo, a última a 2 de junho. Pagava 500 euros de renda, de uma pensão de cerca de 1.350 euros. A Urbagestión chegou a propor uma subida para 2.650 euros e, após negociação, baixou o valor para 1.650. “Deixei de ser eu”, chegou a dizer sobre o impacto do processo.

Cinco dias depois do despejo, e sob forte pressão mediática, a empresa aceitou o regresso da idosa, com um novo contrato de oito anos e uma renda correspondente a 30% dos seus rendimentos brutos. Maricarmen, que se deslocava em cadeira de rodas e saiu de casa de maca, já estava internada e recebeu a notícia no hospital.

O caso desencadeou uma onda de contestação. Com o lema “nem uma Maricarmen mais”, centenas de milhares de pessoas, segundo o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, e dezenas de milhares, segundo as autoridades, manifestaram-se e acamparam na Porta do Sol. Houve também protestos em Barcelona.

Os manifestantes exigiram um “decreto Maricarmen” para proteger idosos vulneráveis de despejos. Pedro Sánchez prometeu um pacote de medidas, mas dois decretos do PSOE foram chumbados. Perante a pressão política, o primeiro-ministro convocou eleições antecipadas para 29 de novembro e o Governo aprovou, já depois da dissolução, novos decretos de urgência sobre habitação, que mantêm a essência dos anteriores.

María del Carmen Abascal trabalhou 34 anos como secretária numa empresa farmacêutica e reformou-se em 1998. Nos últimos tempos tinha dificuldade em comer e deslocar-se e pediu ao Sindicato dos Inquilinos que continuasse a luta por ela. Dizia que queria morrer em casa.

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