Concentração na Avenida Central reuniu sobretudo jovens e estudantes da Universidade do Minho, que denunciaram as dificuldades no acesso à habitação e o aumento do custo de vida. Nova Assembleia Popular está marcada para esta quarta-feira, às 18h30, na Praça da República.
Braga juntou-se à mobilização nacional pelo direito à habitação, com cerca de duas centenas de pessoas a concentrarem-se no centro da cidade, numa iniciativa de solidariedade com as acampadas do Porto e de Lisboa. O protesto, que decorreu esta terça-feira à noite, reuniu sobretudo jovens e estudantes da Universidade do Minho, num momento de contestação às dificuldades económicas, ao aumento dos preços das casas e à falta de alternativas habitacionais acessíveis.
A concentração teve lugar na Praça da República, junto ao Chafariz da Avenida Central, entre as 19h00 e as 20h30. Os participantes manifestaram preocupação com as condições de vida de muitas famílias e jovens, defendendo a necessidade de respostas concretas para a crise da habitação e para o agravamento do custo de vida.
O encontro surgiu de forma espontânea, na sequência dos acontecimentos registados durante a madrugada no Porto e em Lisboa, onde as acampadas em defesa do direito à habitação foram alvo de uma intervenção policial. Em Braga, a iniciativa assumiu um caráter solidário, procurando dar visibilidade às reivindicações e demonstrar que as dificuldades no acesso a uma casa são sentidas em diferentes pontos do país.
Jovens e estudantes denunciam falta de habitação acessível
Teresa Amorim, porta-voz da concentração, explicou à agência Lusa que a mobilização nasceu da vontade de várias pessoas de se associarem aos protestos que decorrem noutras cidades portuguesas.
“Isto no fundo não teve promotores nem organizadores. Foi algo espontâneo, surgiu da vontade popular, começou a circular nas redes [sociais], aconteceu em várias cidades também, no calor dos acontecimentos desta madrugada, no Porto e em Lisboa e da força brutal policial que aconteceu. É uma forma de solidariedade que encontramos e o pessoal juntou-se aqui”, afirmou.
Entre os participantes, a presença de estudantes universitários destacou-se, refletindo as dificuldades sentidas por quem precisa de encontrar alojamento para frequentar o ensino superior longe da sua residência habitual.
Segundo Teresa Amorim, muitos estudantes da Universidade do Minho enfrentam obstáculos no acesso a habitação a preços comportáveis, num contexto em que a oferta de residências públicas e acessíveis continua a ser uma preocupação.
“Temos aqui muitas pessoas jovens, muitos estudantes da Universidade do Minho que também sofrem pela falta de habitação e pela falta de residências públicas e acessíveis. A maioria dos estudantes da Universidade do Minho são estudantes deslocados que não têm outro sítio para onde ir, a não ser para as residências universitárias”, salientou.
A dificuldade em suportar as rendas, sobretudo para quem depende de bolsas, do apoio familiar ou de rendimentos reduzidos, foi uma das questões que esteve na origem da mobilização. Para os participantes, o acesso a uma casa tornou-se um dos principais problemas que condicionam a autonomia dos jovens e a possibilidade de construir um projeto de vida.
Grândola, Vila Morena marcou concentração
Durante o protesto, os manifestantes cantaram “Grândola, Vila Morena”, a conhecida canção de José Afonso associada à Revolução de 25 de Abril, num momento simbólico da concentração.
A iniciativa decorreu sem registo de incidentes referido no relato da Lusa, sob a observação de quatro agentes da PSP, que permaneceram a alguns metros dos participantes.
A mobilização procurou também afirmar o direito à ocupação do espaço público como forma de participação cívica e de expressão de preocupações coletivas. Para os presentes, a crise da habitação não pode ser encarada apenas como um problema individual, uma vez que afeta estudantes, trabalhadores e famílias que enfrentam dificuldades para assegurar despesas básicas.
Teresa Amorim, de 28 anos, considerou que a situação vivida em Portugal acompanha dificuldades sentidas noutros países, defendendo que a reivindicação de melhores condições de vida ultrapassa interesses particulares.
“Portugal não é exceção. É uma vida miserável a que nós assistimos, dos nossos familiares, de pessoas amigas, e daí ser uma luta de todas as pessoas e a razão de estarmos aqui. Não somos egoístas, estamos aqui porque queremos realmente uma vida boa para todas as pessoas”, declarou.
Assembleia Popular regressa esta quarta-feira à Avenida Central
A mobilização terá continuidade esta quarta-feira, 21 de outubro, com uma nova iniciativa marcada para as 18h30, no mesmo espaço, junto ao Chafariz da Avenida Central.
A sessão, designada Assembleia Popular, pretende criar um momento de debate e partilha de experiências sobre o aumento do custo de vida, a crise da habitação e a precariedade. Ao contrário das acampadas realizadas noutras cidades, a iniciativa anunciada para Braga não prevê a instalação de tendas.
Segundo a porta-voz, o objetivo passa por promover uma discussão mais alargada sobre os problemas que afetam a população e avaliar a possibilidade de organizar novas assembleias.
“Um bocado à semelhança do que tem acontecido no Porto e em Lisboa, e aí sim, será para conversar de outra forma, para ver as emoções das pessoas, o que é que sentimos, o que é que queremos para Braga, se queremos fazer mais Assembleias Populares. No fundo é um apelo a ocupar o espaço público, que é um direito constitucional que é nosso”, explicou.
A convocatória do coletivo Já Não Dá Mais Braga aponta igualmente para a necessidade de debater o encarecimento dos bens essenciais, a insuficiência dos salários e as dificuldades crescentes em garantir condições de vida dignas. A organização pretende incentivar a participação dos cidadãos e abrir espaço à discussão de respostas coletivas para problemas que afetam diferentes setores da sociedade.
Protestos começaram no Porto e alargaram-se a outras cidades
A atual vaga de mobilização pelo direito à habitação e contra o aumento do custo de vida teve um dos seus principais momentos no Porto, a 10 de outubro, quando cerca de 1.500 pessoas se concentraram na Praça de D. João I. Na ocasião, os participantes montaram tendas e permaneceram no local durante a noite, dando início a uma acampada que colocou a crise habitacional no centro do debate público.
Nesse mesmo dia, a plataforma cívica “Não dá mais para viver assim” promoveu protestos também em Aveiro, Braga e Lisboa. Entre as reivindicações apresentadas estavam o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, a tributação dos lucros extraordinários de grandes empresas dos setores bancário, energético e da distribuição e a adoção de medidas para responder à crise da habitação.
A mobilização ganhou novo impulso com as iniciativas realizadas no Porto e em Lisboa e com as ações de solidariedade que se seguiram noutras localidades.
Em Braga, a concentração desta terça-feira demonstrou a adesão de cidadãos, sobretudo jovens, a um movimento que procura colocar na agenda pública as dificuldades de acesso a uma casa, o peso das despesas essenciais nos orçamentos familiares e a necessidade de melhores condições de vida.
A Assembleia Popular desta quarta-feira deverá constituir o próximo momento de discussão local, com os participantes convidados a partilhar experiências, identificar problemas e debater formas de dar continuidade à mobilização.


































