Historiadora destacou, no Encontro Nacional de Imprensa Local e Regional, a importância da imprensa como pilar da liberdade e da construção da democracia portuguesa, desde a resistência à ditadura até aos dias de hoje.
Maria Inácia Rezola, historiadora e Comissária Executiva para as Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, afirmou que “a comunicação social e a democracia são indissociáveis e têm uma relação de dependência muito forte”, durante a sua intervenção no Encontro Nacional de Imprensa Local e Regional, Impressa e Digital, que decorreu nos dias 15 e 16 de março no Centro de Juventude de Braga.
Perante cerca de 200 representantes da imprensa regional de todo o país, Rezola integrou o painel dedicado à responsabilidade da Comissão Comemorativa, abordando o papel da comunicação social na resistência à ditadura e na edificação da democracia.
A imprensa regional e a ditadura
A oradora sublinhou a vitalidade da imprensa durante a Primeira República e mesmo após a instauração da ditadura militar, em 1926. “Havia mais de 400 publicações, das quais 41 diários com grande influência”, referiu, destacando títulos como O Primeiro de Janeiro, Diário de Notícias e O Século, com uma forte presença regional e nacional.
Apesar da repressão e da censura, muitos jornais locais mantiveram-se ativos, assumindo uma posição crítica ao regime. “O Jornal do Fundão e o Notícias da Amadora foram dois exemplos heroicos de resistência”, revelou Rezola, citando um relatório de 1968 que reconhecia a incapacidade dos serviços de censura para controlar a crescente influência da imprensa regional.
O 25 de Abril e o papel central dos media
A historiadora lembrou ainda que a comunicação social foi um agente direto do processo revolucionário. “Foi através da rádio que o Movimento das Forças Armadas se dirigiu ao país, ainda de madrugada, explicando o que estava a acontecer e pedindo calma à população”, disse, referindo-se à histórica transmissão da mensagem lida por Joaquim Furtado.
Mais do que relatar, a imprensa assumiu um papel interventivo: “A liberdade de imprensa não foi conquistada com uma lei. Foi conquistada a 25 de Abril, quando jornais como O República saíram para as bancas sem qualquer controlo prévio da censura.” Rezola afirma que, nesse período, a comunicação social ultrapassou o seu papel tradicional e tornou-se “um ator participante na construção da democracia”.
O 25 de Abril hoje: um símbolo transversal
Cinquenta anos depois, as comemorações do 25 de Abril continuam a mobilizar os portugueses. “Só em Lisboa, estima-se que mais de 200 mil pessoas participaram nas celebrações deste ano. É um número impressionante para a realidade portuguesa”, destacou.
Para Maria Inácia Rezola, a data continua a ser um dos raros acontecimentos que une os portugueses em torno de símbolos e memórias comuns: “A canção Grândola Vila Morena, as imagens de Salgueiro Maia, os cravos… fazem parte da nossa identidade coletiva.”
O Encontro Nacional de Imprensa Local e Regional foi um momento de reflexão sobre o presente e o futuro do setor, mas também um reconhecimento do papel histórico que os media, especialmente os locais, tiveram — e continuam a ter — na defesa da liberdade e no reforço da democracia.
































