Neonazis do Movimento Armilar Lusitano tinham “lista de indesejáveis” com figuras públicas e políticos

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Araújo Pereira entre os visados de grupo acusado de terrorismo pelo Ministério Público; investigação revela vigilância, recolha de dados pessoais e plano de ação violenta

O humorista Ricardo Araújo Pereira estava entre os vários nomes identificados pelo Movimento Armilar Lusitano (MAL), um grupo de matriz neonazi agora acusado pelo Ministério Público de integrar uma organização terrorista, no âmbito de uma investigação conduzida pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).

De acordo com a acusação, os membros do grupo terão criado um documento interno designado “lista dos indesejáveis”, onde reuniram nomes de personalidades políticas, comentadores e outras figuras públicas, com recolha e catalogação de informação pessoal e não pública.

Figuras políticas e comentadores entre os alvos

Entre os visados encontram-se várias figuras de destaque da política portuguesa, incluindo o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-primeiro-ministro António Costa, o antigo Presidente Aníbal Cavaco Silva, bem como Luís Montenegro, Carlos Moedas e Rui Tavares. Também surgem referências às deputadas Mariana Mortágua e outras figuras ligadas a diferentes áreas do debate político nacional.

No campo mediático e da opinião pública, a lista inclui igualmente comentadores como Miguel Sousa Tavares, Daniel Oliveira, Paulo Baldaia e Maria Castelo Branco, entre outros nomes citados na investigação.

Ricardo Araújo Pereira surge também identificado entre os alvos, sendo descrito no processo como parte de um conjunto alargado de personalidades consideradas “indesejáveis” pelo grupo.

Vigilância e recolha de informação pessoal

A investigação aponta ainda para episódios de vigilância e recolha de dados sobre alguns dos visados. No caso do atual ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, terão sido detetadas trocas de mensagens entre suspeitos que indicam observação dos seus hábitos e locais frequentados, incluindo registos fotográficos e referências a rotinas diárias.

Segundo o Ministério Público, estas ações faziam parte de um padrão mais amplo de identificação, catalogação e monitorização de alvos por parte da organização.

Acusação envolve crimes de terrorismo e rede estruturada

O Ministério Público acusou nove elementos do Movimento Armilar Lusitano da prática de 29 crimes, a maioria relacionada com terrorismo, incluindo adesão a organização terrorista, incitamento, recrutamento, posse de armas proibidas e tráfico de armamento.

A investigação descreve o grupo como uma estrutura organizada, com processos de recrutamento formais, que incluíam entrevistas e questionários, e com uma hierarquia definida de liderança.

Arsenal, recrutamento e ideologia violenta

De acordo com os elementos recolhidos pela Polícia Judiciária, o grupo terá desenvolvido e testado armamento produzido com recurso a tecnologia de impressão 3D, além de deter um arsenal que incluía explosivos e granadas.

As autoridades chegaram ainda a intercetar comunicações que sugeriam a possibilidade de ataques a infraestruturas do Estado, incluindo referências à Assembleia da República, o que terá contribuído para o enquadramento da acusação como organização terrorista.

Primeira acusação a grupo exclusivamente português desde o caso FP-25

Este processo é considerado pelas autoridades como um dos mais relevantes dos últimos anos no combate ao extremismo violento em Portugal, sendo apontado como a primeira acusação contra um grupo exclusivamente português com este enquadramento desde o caso das FP-25.

Atualmente, quatro dos suspeitos encontram-se em prisão preventiva, enquanto os restantes continuam abrangidos pela acusação formal do Ministério Público.

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