Jovem de Braga cria plataforma para descobrir tascos escondidos e já reúne quase 700 espaços

Carlos Beiramar, licenciado pela Universidade do Minho, criou o “Onde Se Come?”, um site gratuito que ajuda a encontrar restaurantes tradicionais em Portugal e na Galiza. Sem estrelas, classificações ou pagamentos para ganhar destaque, a plataforma privilegia a proximidade e a descoberta de espaços com identidade própria.

Encontrar um bom tasco, longe dos circuitos mais turísticos e das listas habituais de restaurantes, pode tornar-se uma tarefa complicada. Foi para simplificar essa procura que Carlos Beiramar, um jovem bracarense de 29 anos, criou o “Onde Se Come?”, uma plataforma digital que reúne quase 700 espaços de restauração em Portugal e na Galiza.

Licenciado em Ciências da Computação pela Universidade do Minho, Carlos desenvolveu o projeto para responder a uma situação que conhecia bem: a dificuldade em escolher onde comer quando se está com amigos ou numa localidade que não se conhece.

A plataforma foi lançada no início de setembro e conta já com 688 estabelecimentos distribuídos por 194 localidades. Destes, 138 situam-se no distrito de Braga, a região que o criador melhor conhece e onde começou a construir a sua lista de recomendações.

A proposta distingue-se pela simplicidade: em vez de apresentar classificações por estrelas ou listas de popularidade, mostra os espaços por proximidade, permitindo aos utilizadores descobrir casas de comida tradicional que poderiam passar despercebidas.

De uma lista pessoal a quase 700 estabelecimentos

O projeto começou como um passatempo, a partir de uma lista pessoal com cerca de uma centena de estabelecimentos. As recomendações de amigos e as sugestões de outros utilizadores contribuíram depois para o crescimento da plataforma.

“Queria algo mais direto: abrir um site, ver que tascos existem à minha volta e escolher um sem ter de passar por dezenas de resultados”, explica Carlos Beiramar à NiB.

A ideia surgiu também da experiência de viagens e passeios por centros históricos, onde o jovem começou a reparar na repetição de propostas gastronómicas semelhantes, muitas vezes desligadas das características próprias de cada região.

“Não tenho nada contra essas cozinhas, mas acho que perdemos alguma coisa quando os lugares começam a deixar de ter uma identidade própria”, afirma.

Foi dessa vontade de valorizar os espaços com uma ligação mais forte à gastronomia local, às comunidades e às tradições que nasceu o “Onde Se Come?”. Segundo o criador, o projeto avançou sem um plano de negócio ou uma estratégia inicial de monetização.

O que é, afinal, um tasco?

A definição de tasco é uma das questões centrais da plataforma. Para Carlos Beiramar, não depende apenas da idade do estabelecimento, da decoração ou da aparência do espaço.

O objetivo é reunir casas de comida tradicional, com uma boa relação qualidade-preço e uma identidade ligada à região onde estão inseridas.

“Um espaço recente também pode ter esse espírito, tal como um tasco tradicional pode evoluir sem perder aquilo que o torna especial”, defende.

A seleção não pretende, por isso, limitar-se aos estabelecimentos mais antigos ou aos espaços com uma imagem tradicional. O importante é preservar o caráter próprio de cada casa e dar visibilidade a restaurantes que proporcionam experiências gastronómicas ligadas ao território.

Cada sugestão passa por um processo de validação antes de ser incluída na plataforma, embora o responsável reconheça que não visitou pessoalmente todos os estabelecimentos.

Os utilizadores também podem participar, adicionando os seus espaços favoritos diretamente no site. Desta forma, a plataforma procura reunir recomendações de várias pessoas e alargar progressivamente a lista de locais disponíveis.

Sem estrelas, rankings ou pagamentos para aparecer

Uma das principais diferenças do “Onde Se Come?” está na ausência de avaliações e classificações públicas.

Carlos Beiramar considera que as estrelas podem ser úteis, mas entende que nem sempre permitem avaliar um estabelecimento de acordo com aquilo que realmente o distingue. As expectativas dos clientes variam e um restaurante tradicional pode oferecer uma excelente refeição a um preço acessível sem ter o serviço ou a apresentação de um espaço mais sofisticado.

Por essa razão, a plataforma não pretende determinar quais são os melhores tascos, mas facilitar a descoberta de opções próximas de cada utilizador.

“No Onde Se Come, não queremos dizer às pessoas qual é o melhor tasco. Queremos mostrar-lhes os que existem à sua volta e dar-lhes a oportunidade de construírem a sua própria experiência”, explica.

A regra aplica-se também à visibilidade dos estabelecimentos: ninguém paga para aparecer ou subir na lista. A distância continuará a ser o critério de ordenação, mesmo que venham a ser introduzidas novas funcionalidades.

Como funciona a plataforma

A consulta do “Onde Se Come?” é gratuita e não exige a criação de uma conta. Os estabelecimentos aparecem em cartões com fotografias, nome, localidade e distância, permitindo uma pesquisa rápida.

Por defeito, os espaços são organizados pela proximidade ao centro da cidade selecionada. Quem autorizar o acesso à localização do dispositivo passa a receber sugestões ordenadas pela distância à sua posição atual.

Segundo Carlos, os dados de localização são utilizados apenas para calcular as distâncias e não ficam guardados na base de dados da plataforma.

Além da pesquisa por zona, os utilizadores podem procurar restaurantes pelo nome ou por um prato específico. Existe ainda uma opção para escolher um estabelecimento aleatoriamente, pensada para quem prefere deixar a decisão ao acaso.

Quem criar uma conta tem acesso a funcionalidades adicionais, incluindo uma espécie de caderneta de cromos, onde pode assinalar os tascos que já visitou e comparar a sua coleção com a dos amigos.

É também possível criar grupos e sortear um restaurante para uma refeição conjunta, dando prioridade aos espaços que ainda não foram visitados por todos os participantes.

Braga concentra uma parte importante da lista

O distrito de Braga tem uma presença significativa na plataforma, não só por ser a região de origem de Carlos Beiramar, mas também por constituir o território que melhor conhece.

Entre as sugestões disponíveis no concelho de Braga encontram-se a Taberna Subura, conhecida pelos pregos e pelas pataniscas, a Adega Malhoa, com pratos como o pica no chão, e a Tasquinha Dom Ferreira, com arroz de pato.

A lista inclui ainda a Tasquinha do Fujacal, O Garfo e O Pisco, onde são referidas especialidades como papas, bacalhau e posta.

A descoberta estende-se a outros concelhos do distrito, com exemplos como a Tasca da Zefa, em Guimarães, O Bosque, em Amares, e a Tasquinha do Cerqueira, em Vila Verde.

Estas sugestões ilustram a diversidade dos espaços reunidos no site, sem estabelecer qualquer hierarquia ou classificação entre restaurantes.

Plataforma também quer chegar aos turistas

O “Onde Se Come?” está igualmente disponível em inglês, procurando ajudar os visitantes estrangeiros a encontrar estabelecimentos ligados à gastronomia e à vida das comunidades locais.

A ideia resulta também das experiências do próprio criador durante as viagens, nas quais nem sempre encontrou nos restaurantes mais bem classificados aquilo que procurava: uma experiência genuína e menos orientada para o turismo.

Ao facilitar o acesso a casas tradicionais e a espaços menos conhecidos, a plataforma pretende contribuir para uma descoberta mais espontânea da gastronomia local.

Novas funcionalidades estão em preparação

Carlos Beiramar continua a desenvolver e a gerir o projeto sozinho, conciliando o trabalho na plataforma com a sua atividade profissional. Para já, é também o responsável por suportar os custos associados ao seu funcionamento.

Entre as funcionalidades que gostaria de acrescentar estão a divulgação de horários, menus e pratos do dia, bem como vídeos com os proprietários dos estabelecimentos a contar as histórias das suas casas.

O criador reconhece, contudo, que ainda não dispõe de dados que permitam medir o impacto da plataforma na chegada de novos clientes aos restaurantes.

O objetivo imediato passa por continuar a aumentar o número de espaços disponíveis e tornar a ferramenta cada vez mais útil para quem procura alternativas aos circuitos habituais.

Sem rankings, estrelas ou publicidade paga para ganhar posições, o “Onde Se Come?” aposta numa ideia simples: ajudar cada pessoa a encontrar o próximo tasco e deixar que a experiência à mesa fale por si.

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