Alphaville em Guimarães: foi preciso esperar pelo último sonho para pôr a sala de pé

Nos 25 anos do Multiusos, Marian Gold e companhia revisitaram os clássicos dos anos 80 com uma roupagem mais pesada e uma energia surpreendente. Perante cerca de três mil pessoas, «Big in Japan», «Sounds Like a Melody» e «Forever Young» fizeram-se ouvir, mas foi «State of Dreams», um tema de 2003 menos conhecido do grande público, que acabou por libertar a plateia.

Mais de quatro décadas depois de «Big in Japan», «Sounds Like a Melody» e «Forever Young», os Alphaville continuam a viver rodeados pelos êxitos que marcaram a pop eletrónica dos anos 80. Em Guimarães, porém, mostraram que há vida para lá da nostalgia. No concerto integrado nas comemorações dos 25 anos do Multiusos, Marian Gold trouxe uma banda musculada, músicos cheios de energia e novas leituras de um repertório que o tempo não conseguiu gastar.

As fotografias que acompanham este artigo foram captadas durante o concerto dos Alphaville no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa.

Às 21h29, um som mecânico e repetitivo começou a ocupar o Multiusos de Guimarães. Durante alguns minutos, a mesma pulsação regressou, ganhou volume e acumulou tensão, como uma engrenagem a preparar a sala para arrancar. Depois, as luzes apagaram-se e, curiosamente para uma banda cuja história começou precisamente longe dos palcos, o que se seguiu foi um concerto profundamente dependente de músicos a tocar.

Quando os Alphaville surgiram no início dos anos 80, Marian Gold, Bernhard Lloyd e Frank Mertens trabalhavam sobretudo com sequenciadores, máquinas de ritmos e sintetizadores. Apesar do sucesso imediato, não se consideravam preparados para uma digressão convencional e recusavam a ideia de simplesmente subir ao palco e recorrer ao playback. A atividade ao vivo consistente só chegaria mais tarde.

É isso que torna particularmente interessante a versão atual dos Alphaville. Algumas das canções mais identificáveis da pop eletrónica dos anos 80 conquistaram o mundo numa época em que os próprios músicos praticamente não as apresentavam desta forma. Hoje, conseguem fazê-lo com personalidade e uma força que vai muito além da reprodução fiel dos discos.

Uma guitarra que mudou a paisagem sonora

A primeira surpresa esteve na guitarra. Lars Kutschke não apareceu apenas para preencher espaços entre sintetizadores. A sua intervenção foi constante, acrescentando textura, intensidade e, em determinados momentos, uma dimensão rock bastante mais pesada do que as gravações originais poderiam fazer prever.

«Nevermore» foi um dos melhores exemplos, ganhando força e ataque numa versão particularmente bem conseguida.

Há também uma história curiosa nesta relação entre músico e canção. «Big in Japan» foi a primeira música que Kutschke gravou da rádio para uma cassete, quando tinha dez anos. Décadas depois, estava em palco a tocá-la com a banda que a criou.

Do outro lado, Carsten Brocker foi provavelmente a figura instrumental mais difícil de ignorar. Tocava teclados e comandava as máquinas com enorme precisão, mas comportava-se como se estivesse numa discoteca. Dançava, saltava e movimentava-se constantemente, aproveitando cada minuto do concerto. O contraste entre a disciplina eletrónica das músicas e aquela exuberância funcionava surpreendentemente bem.

Atrás deles, Alexandra Merl, no baixo, e Patrick Metzger, na bateria, garantiam uma base sólida e poderosa. Era uma secção rítmica muito presente, capaz de transformar composições originalmente construídas a partir de sequenciadores e programação em algo consideravelmente mais físico.

As vozes de apoio de Elisabeth Markstein e Ulrike Weidemüller completavam o conjunto e estiveram particularmente bem nas harmonias que exigiam maior amplitude, acompanhando Marian Gold sem lhe retirar protagonismo.

No centro continuava o vocalista, aos 72 anos, com uma voz de qualidade impressionante. Quatro décadas deixam marcas, naturalmente, e algumas melodias já não são interpretadas exatamente como nas gravações originais. O próprio Gold já explicou que certas canções, especialmente «Sounds Like a Melody», foram gravadas numa região vocal extremamente alta e precisam hoje de adaptações em palco.

Nada disso comprometeu a noite. Gold continua imediatamente reconhecível e, mais importante, continua a cantar as músicas em vez de simplesmente sobreviver-lhes.

Uma plateia com o travão de mão puxado

O maior problema do concerto não estava no palco. O som do Multiusos nem sempre devolveu à banda a clareza que aqueles arranjos mereciam. Num repertório cheio de sintetizadores, guitarra, baixo, bateria, vozes de apoio e programações, algumas camadas acabavam por disputar espaço dentro da sala.

A potência chegava, mas faltava, durante boa parte da noite, libertar a energia acumulada na plateia.

O concerto decorreu num formato sentado e, durante bastante tempo, o Multiusos pareceu estar com o travão de mão puxado. O público batia palmas, cantava, respondia a Marian Gold e, em vários momentos, acompanhava as músicas com centenas de braços no ar. A vontade de participar estava lá. Faltava levantar-se.

A contradição tornava-se evidente. A banda aumentava a pressão, Gold procurava a plateia, Brocker dançava como se não existissem cadeiras à sua frente e as pessoas respondiam com entusiasmo, mas continuavam sentadas. A energia queria sair e encontrava uma barreira física.

Vista das galerias superiores, junto aos bares, a diferença era ainda mais clara. Ali havia pessoas de pé, a dançar e a circular com liberdade. Ao longo da noite, cada vez mais espectadores pareciam preferir aquela zona, criando uma pequena plateia paralela que encontrara a solução mais simples para o problema.

A partir da segunda metade do concerto, a resistência começou a desaparecer. As últimas canções acabariam por resolver o resto.

«Big in Japan»

Entre tantas músicas carregadas de memória coletiva, «Big in Japan» merece ser ouvida com atenção à história que lhe deu origem.

O título, a melodia irresistível e o enorme sucesso transformaram-na num dos símbolos mais reconhecíveis do synthpop dos anos 80. A letra, porém, nasceu num contexto muito mais sombrio.

Marian Gold inspirou-se na realidade da Berlim Ocidental do final dos anos 70 e na cena de consumo de heroína associada à estação Zoologischer Garten. A canção retrata um casal dependente de drogas que imagina a possibilidade de escapar àquela realidade, enquanto a expressão «Big in Japan» funciona como uma fantasia de sucesso e reconhecimento num lugar distante.

Conhecer essa origem torna curiosa a forma como a música vive hoje. Em Guimarães, foi recebida como uma celebração. A melodia provocou reconhecimento imediato, as vozes espalharam-se pela sala e a versão atual, reforçada pelo baixo, pela bateria e pela guitarra, retirou-lhe parte da distância sintética da gravação original.

Uma história nascida numa Berlim muito diferente chegava, mais de quarenta anos depois, transformada numa enorme memória coletiva.

O êxito que Marian Gold aprendeu a amar

«Sounds Like a Melody» traz outro paradoxo. Depois de «Big in Japan» se transformar num sucesso, os Alphaville precisavam de outro single antes do lançamento de «Forever Young». A resposta surgiu rapidamente: a canção foi escrita numa tarde e, poucas semanas depois, estava a caminho de se tornar outro êxito.

Gold manteve durante anos uma relação difícil com o tema. Sentia que tinha sido composto por obrigação comercial e chegou a evitar interpretá-lo ao vivo. Quando o recuperou nos anos 90, acabou por redescobrir o prazer de o cantar.

Em Guimarães, seria difícil imaginar que aquela música tivesse sido alguma vez rejeitada pelo próprio autor. A progressão eletrónica, a força da banda e o crescendo característico da composição funcionaram como preparação perfeita para aquilo que todos sabiam ainda faltar.

Então chegou «Forever Young».

Poucas canções foram tão completamente apropriadas pela memória popular. Tornou-se banda sonora de casamentos, despedidas, funerais, aniversários e celebrações, frequentemente reduzida a uma declaração sentimental sobre permanecer jovem.

A origem é menos confortável. «Forever Young» nasceu num contexto marcado pela Guerra Fria, pelo medo de um conflito nuclear e pela fragilidade da existência humana. A música transporta essa tensão por baixo da sua melodia intemporal.

Isso torna particularmente estranho ouvir centenas de pessoas cantá-la mais de quatro décadas depois. Marian Gold já não é o homem que gravou aquela voz em 1984 e o público também não é o mesmo. Muitos envelheceram acompanhados pela canção que lhes pedia para permanecerem jovens.

Em Guimarães, o tempo venceu literalmente a promessa do título e, de alguma forma, confirmou-a. As pessoas envelheceram. A música, não.

Foi preciso chegar ao último sonho

O concerto terminou por volta das 23h05 e deixou uma sensação curiosa. «Big in Japan», «Sounds Like a Melody» e «Forever Young» trouxeram consigo a memória coletiva, as histórias e, inevitavelmente, alguma nostalgia. Mas foi uma canção muito menos conhecida que deu à noite o seu último gesto.

«State of Dreams», tema de 2003, nunca alcançou o reconhecimento dos grandes clássicos dos Alphaville. Ainda assim, acabou por protagonizar o momento que faltava: o público levantou-se e aquilo que durante tanto tempo se manifestara em palmas, vozes e braços no ar transformou-se finalmente em movimento.

A energia que já existia nas galerias chegou à plateia e, pela primeira vez, o Multiusos pareceu inteiro dentro do mesmo concerto.

Mais de quarenta anos depois, os Alphaville continuam rodeados pelas músicas que os tornaram enormes, mas já não precisam de viver apenas dentro delas. Em Guimarães, tocaram-nas com peso, liberdade e prazer suficientes para lhes dar outra vida.

Ficou também a sensação de que o repertório posterior merecia um pouco mais de espaço. «Flame», de «Salvation», ficou de fora — uma ausência sentida não apenas por ser uma das canções mais bonitas da banda, mas por lembrar que a história dos Alphaville não terminou nos grandes êxitos dos anos 80.

No fim, foi precisamente o sonho menos famoso que conseguiu pôr a sala de pé.

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