Bérgamo enfrenta dias difíceis face à Covid-19 logo agora que o clube orgulhava tanto o seu povo 

Atalanta Bergamasca Calcio é o pequeno clube que se fez grande sem medo da dimensão dos vizinhos de Milão e Turim.

Sem o dinheiro dos concorrentes mas com algo que o futebol moderno nunca vai conseguir comprar (o amor dos adeptos), a Dea – a alcunha do clube em alusão à Deusa Atalanta que lhe deu o nome – é o emblema que quis unir um povo pelo prazer da bola, pela emoção do golo, pelo abraço simples num futebol cada vez mais virado para o lucro. A Atalanta foi isso tudo, nos últimos belos tempos, até ao dia em que foi traída. Logo agora. 

Em julho de 2011, pouco tempo depois de Antonio Percassi ter pegado no clube transalpino e provocado uma verdadeira revolução rumo ao futuro, e não falando necessariamente neste caso mas servindo-lhe que nem uma luva, António Lobo Antunes recordava nas páginas da revista ‘Visão’ que longe vão os tempos do futebol simples da “pura criação, uma atividade eufórica, uma magia cinzelada, uma nascente de prazer, uma inspiração, um entusiasmo”. Mas esses tempos ficaram bem próximos do clube de Bérgamo.

Era no norte de Itália que se iam escrevendo páginas e páginas de sucesso de uma Atalanta que fez sonhar os adeptos, ali mesmo onde outrora só se falava no tão tradicional ‘catenaccio’ e aquela arte de defender, mesmo que fosse preciso jogar ‘feio’ (seja lá isso o que for no entendimento do adepto).

Bérgamo assistia, por estes tempos, ao regresso desse encantamento do ‘joga bonito’, de uma equipa pensada e moldada pelo treinador Gian Piero Gasperini.

Tudo era encantamento até que um vírus maldito decidiu deixar o mundo suspenso, a bola parada e puxou o tapete à Atalanta, logo à equipa que tanto tem feito sonhar o seu povo.

Ao mesmo tempo que na China e no mundo oriental se ia tentando combater o novo coronavírus, estavam os adeptos da Atalanta longe de imaginar que a Covid-19 (essa palavra que agora preenche os dias e as preocupações no mundo) lhes iria deixar o coração apertado, logo agora que eram os dias mais felizes da sua história.

Bérgamo passou, nos últimos tempos, a não ser notícia pela Atalanta mas, sim, por ser uma das regiões mais fustigadas pela Covid-19, que tem roubado vivas a milhares de italianos.

O presidente da Câmara de Bérgamo crê que um dos jogos da Liga dos Campeões, disputado em Milão, com 40 mil pessoas nas bancadas, numa altura em que o vírus já circulava em Itália, poderá ter contribuído para a explosão do vírus.

Papu Gómez, a estrela da equipa, entende que o jogo com o Valência para a Champions, pode ter sido uma espécie de ‘detonador’ e agora considera que ter disputado essas partidas foi “terrível”.

“Temos 120 mil habitantes e nesse dia foram 45 mil a San Siro. Foi histórico para a Atalanta, algo único. Foi uma loucura”, lembra, ao falar apenas do aspeto futebol. Mas quanto à vida, poderá ter sido fatal para a vida de muitos adeptos. E isso, Papu Gómez lamenta.

Era em San Siro, na casa dos vizinhos, que a Atalanta se mostrava ainda com maior glamour na Liga dos Campeões.

O escritor Gabriel García Márquez dizia que “o que você vive, ninguém apaga”. Do futuro ninguém sabe. Mas é bem provável que a Atalanta possa voltar a orgulhar o seu povo num qualquer estádio, em união, em abraços e possa ajudar Bérgamo a reerguer-se. Porque o futebol foi feito para unir e divertir, dizem os poetas. ‘Sicuramente, bella Italia’.

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