Realizador de “O Cerco” e produtor de filmes fundadores do Cinema Novo tinha 87 anos.

O produtor e realizador António da Cunha Telles, um dos nomes indissociáveis do Cinema Novo português nos anos de 1960, morreu na quarta-feira aos 87 anos, disse à agência Lusa a filha, a produtora Pandora da Cunha Telles.

De acordo com a produtora, António da Cunha Telles morreu no Hospital Cuf Tejo, em Lisboa, e o funeral irá realizar-se no sábado também na capital.

Deixando praticamente concluído o ainda inédito filme “Cherchez la femme”, o produtor e realizador de cinema António Cohen da Cunha Telles nasceu em 1935, no Funchal, filho de um advogado português e de uma cantora lírica dinamarquesa.

Foi na cidade madeirente que começou a fazer filmes ainda na adolescência: no documentário “Chamo-me António da Cunha Telles” (2011), de Álvaro Romão, o produtor lembra-se de revelar a película desses primeiros filmes na banheira, em casa, porque de outra forma demoraria três meses, se enviasse para revelação no continente.

Frequentou o curso de Medicina na Universidade de Lisboa, foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e, de 1956 a 1961, viveu em Paris para estudar realização no Institut d’Hautes Études Cinematographiques (IDHEC).

Regressando ao nosso país, dirigiu o jornal Imagens de Portugal, foi responsável pelos serviços de cinema da Direção-Geral do Ensino Primário, orientou cursos na Mocidade Portuguesa e foi operador de câmara para a RTP, tendo filmado a visita da rainha Isabel II a Portugal em 1957.

A sua ligação ao cinema e à emergência da nova expressão remonta ao início da década de 1960. Foi no IDHEC que se cruzou com Paulo Rocha e é dele o primeiro filme que produz: “Os Verdes Anos” (1963), que representa uma estreia para a maioria dos técnicos e elenco envolvidos e também para o próprio Paulo Rocha enquanto realizador.

Continuou com a produção de filmes fundadores do Cinema Novo português com títulos como “Belarmino” (1964), de Fernando Lopes, e “Domingo à Tarde” (1966), de António Macedo.

“O triste cinema que ainda existia, sem graça, sem piada, sem ideias, cinzentão, não queria que nós aparecêssemos, fechou-nos completamente as portas. (…) A minha primeira ideia era ter sido segundo assistente de um dos realizadores da época, para ver como funcionava. Isso foi-nos proibido. Aproximámo-nos entre nós e começámos a fazer filmes com equipas que inventámos”, disse Cunha Telles, em 2014, numa entrevista na rádio pública Antena 2.

Em 2014, quando dedicou um ciclo de cinema a Cunha Telles, a Cinemateca Portuguesa lembrava que o produtor criou o curso universitário de Cinema Experimental, “que formou grande parte da geração de técnicos do Cinema Novo”, e teve também um papel importante na distribuição, a partir de 1973, com a Animatógrafo, considerada responsável por uma quase revolução no tipo de cinema visto em Portugal no início dos anos 70.

“O seu papel como distribuidor, alicerçado numa lógica cinéfila que cultivou na Cinemateca Francesa nos tempos de estudante, é igualmente notável, tendo sido responsável pela exibição em Portugal de filmes clássicos de cineastas como Sergei Eisenstein, Jean Renoir, Jean Vigo, Roberto Rossellini, bem como de cineastas então emergentes: Nagisa Oshima, Alain Tanner, Bernardo Bertolucci e Glauber Rocha”, sublinhava a Cinemateca.

A estreia de António da Cunha Telles nas longas-metragens de ficção aconteceu em 1970 com “O Cerco”, protagonizado por Maria Cabral e apresentado naquele ano em Cannes.

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