A PSP das Caldas da Rainha registou duas denúncias graves no mesmo dia. Uma das vítimas perdeu 130 mil euros após dar acesso remoto ao seu computador a falsos gestores de conta.
O fascínio pelo lucro rápido no mercado dos criptoativos continua a ser explorado por redes criminosas altamente organizadas. A Polícia de Segurança Pública (PSP) emitiu esta terça-feira, 23 de junho, um aviso sério à população após duas novas denúncias registadas na esquadra das Caldas da Rainha. No espaço de poucas horas, dois cidadãos viram desaparecer um total de 138 mil euros das suas contas bancárias — uma das vítimas perdeu 130 mil euros e a outra ficou lesada em 8 mil euros.
O enredo repete-se, mas os contornos tecnológicos estão cada vez mais sofisticados. O primeiro contacto com a fraude aconteceu através de anúncios patrocinados nas redes sociais. Para captar a confiança dos utilizadores, as publicações utilizavam de forma abusiva a imagem de figuras públicas e celebridades ligadas ao mundo do desporto. Muitos destes conteúdos, avisa a polícia, recorrem já a manipulações avançadas com recurso a Inteligência Artificial (IA), tornando as falsas recomendações de investimento assustadoramente credíveis.
O “modus operandi”: Chamadas internacionais e controlo remoto dos aparelhos
Assim que as vítimas clicaram nos anúncios e manifestaram interesse, foram reencaminhadas para plataformas digitais falsas onde inseriram os seus dados pessoais e contactos. A partir desse momento, a armadilha fechou-se. Passaram a receber chamadas telefónicas frequentes de indivíduos que se apresentavam como gestores de investimento especializados, operando a partir de várias nacionalidades para simular a robustez de uma empresa internacional.
Prometendo um acompanhamento personalizado e lucros garantidos, os burlões convenceram as vítimas a realizar sucessivas transferências bancárias para várias contas desconhecidas. O nível de intrusão subiu de tom quando os criminosos solicitaram — e conseguiram — o acesso remoto aos computadores, tablets ou telemóveis dos lesados. Sob o pretexto de instalarem aplicações de monitorização de mercado para que as vítimas pudessem ver os “lucros” a crescer, os burlões ganharam controlo total sobre os dispositivos.
A ilusão de legitimidade manteve-se intacta enquanto os utilizadores continuaram a injetar dinheiro. O choque com a realidade deu-se quando as vítimas tentaram resgatar os lucros acumulados ou recuperar o capital inicialmente investido. Nesse momento, todas as linhas de comunicação foram cortadas e o acesso às plataformas foi bloqueado, confirmando-se o cenário de burla.
Um crime transversal que explora o desconhecimento
A PSP sublinha que tem registado um aumento preocupante deste tipo de queixas. Os criminosos aproveitam a enorme popularidade mediática dos criptoativos e o desconhecimento técnico da maior parte dos cidadãos sobre o funcionamento real deste mercado para aplicar o golpe. Os canais de aproximação são diversos: desde anúncios no Facebook e Instagram até mensagens diretas no WhatsApp e Telegram, ou páginas Web clonadas que imitam perfeitamente portais de finanças legítimos.
As autoridades reforçam que estas fraudes não escolhem alvos e “podem atingir qualquer cidadão, independentemente do valor que decida investir inicialmente”. Recorda-se ainda, em linha com os alertas do Banco de Portugal, que os criptoativos são ativos virtuais sem curso legal no país, o que significa que não são garantidos por nenhuma autoridade bancária nacional ou europeia em caso de fraude ou pirataria.
O guia da PSP para proteger as suas poupanças
Para evitar que mais pessoas caiam nestas redes de contornos internacionais, a Polícia de Segurança Pública partilhou um conjunto de regras de ouro que devem ser seguidas rigorosamente:
- Desconfie de milagres: Rejeite de imediato qualquer promessa de lucros invulgarmente elevados e sem risco associado.
- Diga “não” à pressão: Nunca tome decisões de investimento sob sentimentos de urgência impostos por terceiros.
- Faça o trabalho de casa: Verifique minuciosamente a legitimidade da plataforma e confirme junto dos reguladores (como a CMVM ou o Banco de Portugal) se a entidade está autorizada a exercer atividades financeiras.
- Soberania digital: Nunca, em circunstância alguma, permita que desconhecidos tenham acesso remoto ao seu computador ou telemóvel.
- Contas anónimas: Não transfira dinheiro para contas bancárias cuja titularidade não consiga confirmar de forma clara.
Caso suspeite que está no radar de uma rede de burlões ou se já efetuou alguma transferência, a PSP aconselha a cortar imediatamente todos os contactos. Deve guardar de forma segura todas as mensagens, capturas de ecrã dos sites, registos de chamadas e comprovativos bancários, apresentando queixa numa esquadra com a maior brevidade possível para travar o fluxo do dinheiro.



































