O músico e compositor morreu aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. Mais de cinco décadas de carreira deixaram temas como “Frágil”, “Bairro do Amor” e “Deixa-me rir” na história da música portuguesa.
Jorge Palma morreu na segunda-feira à noite, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. A notícia foi anunciada esta terça-feira pela família, encerrando uma carreira de mais de meio século marcada pela composição, pelo piano e por uma forma muito própria de transformar experiências pessoais em canções.
“Frágil”, “Bairro do Amor”, “Estrela do Mar”, “Na Terra dos Sonhos” e “Deixa-me rir” são alguns dos temas que ficaram associados ao percurso de um dos nomes mais marcantes da música portuguesa contemporânea.
A família recorda Jorge Palma como um artista que deixou uma obra “assinalável” e que faz parte da história portuguesa, destacando também a generosidade e a relação que manteve com muitas das pessoas que encontrou ao longo da vida.
Do piano clássico ao rock
Nascido em Lisboa, em 1950, Jorge Palma começou a estudar música aos seis anos e entrou no Conservatório de Música de Lisboa aos dez.
Aos 14 anos abandonou a música clássica para se dedicar ao pop-rock. O seu percurso profissional começou ainda antes da carreira a solo: integrou os grupos Sindicato e Black Boys, tendo o Sindicato participado na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros, em 1971.
Em 1972 gravou o primeiro single em nome próprio, “The Nine Billion Names of God”. Pouco depois, o serviço militar levou-o a deixar Portugal, instalando-se na Dinamarca.
Regressou em 1974, depois do 25 de Abril, e começou a trabalhar como orquestrador. Um ano depois lançou o primeiro álbum, “Como uma viagem na palma da mão”.
Uma carreira construída ao longo de décadas
Jorge Palma viria a editar mais 13 álbuns de originais, numa discografia que acompanhou diferentes fases da sua vida.
Na década de 1980 regressou a Lisboa e retomou os estudos de piano no Conservatório, que concluiu em 1990. No ano seguinte lançou “Só”, uma coletânea em que revisitou, apenas ao piano, temas dos seus primeiros anos.
Durante os anos 1990 integrou o Palma’s Gang, ao lado de músicos como Zé Pedro e Kalu, dos Xutos & Pontapés, e Flak e Alex Cortez, dos Rádio Macau. Trabalhou também para o teatro, integrou o projeto Rio Grande e compôs para outros artistas.
A produção discográfica prosseguiu com “É proibido fumar” (2001), “Norte” (2004), “Voo nocturno” (2007) e “Com todo o respeito” (2011).
O seu último álbum de originais, “Vida”, chegou em 2023.
Os filhos levaram a música para o palco
A ligação de Jorge Palma à música prolongou-se também através dos filhos, Vicente Palma e Francisco Palma.
Em maio de 2025, estreou o espetáculo “3 palmas na mão”, no qual partilhava o palco com os dois filhos.
Vicente Palma, nascido em 1983, fazia parte da banda que acompanhava o pai há cerca de duas décadas. Francisco Palma, nascido em 1995, completava a formação familiar em palco.
Foi uma das últimas expressões públicas de uma relação entre família e música que acompanhou Jorge Palma até à fase final da carreira.
Uma carreira reconhecida com vários prémios
O percurso artístico de Jorge Palma foi distinguido em diferentes momentos.
Em 2002, recebeu o Prémio José Afonso, pelo álbum “Jorge Palma”. Dez anos depois venceu a primeira edição do Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores, com “Com todo o respeito”.
Em 2020, ano em que completou 70 anos, foi distinguido com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa e condecorado pelo então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
Já em abril de 2026 recebeu o Prémio Carreira dos 8.º PLAY – Prémios da Música Portuguesa, numa distinção que reconheceu a dimensão do seu percurso artístico.
“Lembrado pelas suas canções e palavras”
Na mensagem em que anunciou a morte, a família pediu que Jorge Palma seja recordado sobretudo através da sua obra.
A mulher, Rita Tomé, os filhos e os agentes André Sebastião e Tiago Branco agradeceram as manifestações de amizade e pediram que o músico seja lembrado “pelas suas canções e palavras”.
Depois de mais de cinco décadas a escrever, tocar e cantar sobre a vida, Jorge Palma deixa precisamente aquilo que a família agora pede: uma obra que continuará a falar por ele.



































