Fundador de projetos como «O Jornal», «Tal&Qual» e a primeira série da revista «Sábado», marcou várias gerações do jornalismo português. Moderou o histórico debate televisivo entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, em 1975, que ficou associado à expressão «Olhe que não, olhe que não».
O jornalista e escritor Joaquim Letria morreu esta sexta-feira, aos 82 anos, na sua residência, em Lisboa, informou à agência Lusa uma fonte familiar.
Nascido a 8 de novembro de 1943, Joaquim Letria encontrava-se debilitado há algum tempo, embora não estivesse doente, segundo a mesma fonte.
Com uma carreira de várias décadas, afirmou-se como uma das figuras de referência do jornalismo português, tendo passado pela imprensa escrita, rádio e televisão, além de ter desempenhado funções institucionais e dedicado parte da sua vida ao ensino do jornalismo.
Uma carreira marcada pela liberdade de imprensa
Joaquim Letria iniciou a carreira jornalística em 1963, no Diário de Lisboa, tendo trabalhado também na revista Flama e no Rádio Clube Português.
Foi repórter internacional da Associated Press (AP) e correspondente da agência alemã Deutsche Presse-Agentur. Em 1970, mudou-se para Londres, onde trabalhou na BBC e colaborou com o Expresso.
Regressou a Portugal depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, integrando a direção de informação da RTP. No ano seguinte, esteve entre os fundadores do semanário O Jornal, dando início a uma ligação a vários projetos editoriais que marcaram a imprensa nacional.
Fundou também o semanário Tal&Qual, em 1980, e esteve na origem da primeira série da revista Sábado, que dirigiu em 1988.
Na televisão, destacou-se em programas como Diretíssimo e Tal&Qual, nos quais cruzou informação, entrevistas e entretenimento. Foi ainda um dos pioneiros das rubricas de «apanhados» em Portugal.
Moderou o histórico debate entre Soares e Cunhal
Um dos momentos mais marcantes da carreira de Joaquim Letria aconteceu a 6 de novembro de 1975, quando moderou, juntamente com José Carlos Megre, o célebre debate televisivo entre Mário Soares, então líder do Partido Socialista, e Álvaro Cunhal, secretário-geral do Partido Comunista Português.
O confronto político ficou para a história pela troca de argumentos entre os dois dirigentes, em particular pela expressão «Olhe que não, olhe que não», que atravessou gerações e permanece na memória coletiva portuguesa.
Ao longo do percurso como jornalista, entrevistou personalidades internacionais de diferentes áreas, entre as quais o pintor surrealista Salvador Dalí e Samora Machel, líder da luta pela independência de Moçambique e primeiro Presidente do país após a independência.
Enquanto repórter da Associated Press, acompanhou também, em 1967, os acontecimentos relacionados com a morte de Ernesto «Che» Guevara, na Bolívia.
Porta-voz de Ramalho Eanes e presidente do Sindicato dos Jornalistas
A atividade profissional de Joaquim Letria estendeu-se igualmente a funções institucionais. Entre 1981 e 1986, foi porta-voz do Presidente da República, Ramalho Eanes.
Exerceu ainda a presidência do Sindicato dos Jornalistas entre 1987 e 1988, num período importante para a afirmação da profissão e da liberdade de imprensa em Portugal.
Paralelamente, dedicou mais de duas décadas ao ensino do jornalismo, tendo lecionado na Escola Superior de Jornalismo do Porto, nas universidades Independente e Autónoma de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração, em Aveiro.
Colaborou também com a Rádio Comercial e com o jornal 24 Horas. Em reconhecimento do seu trabalho, recebeu o Prémio da Imprensa relativo a 1974, na categoria de televisão.
Deixou obra dedicada ao jornalismo e à crónica
Como escritor, Joaquim Letria publicou livros de crónicas e obras de reflexão sobre a comunicação social, a censura e o exercício da profissão jornalística.
Entre os títulos da sua bibliografia encontram-se Histórias para Ler e Deitar Fora (1987), A Verdade Confiscada — Escândalo — A Armadilha da Nova Censura (1998), Pequeno Breviário Jornalístico — Géneros, Estilos e Técnicas (1999) e Livro de Assentos (1999).
Em 2023, publicou A Arte da Crónica — Um Pontapé nos Textículos, mantendo a ligação à escrita e à reflexão sobre o jornalismo.
O seu percurso foi também retratado no livro de entrevistas Joaquim Letria — Sem Papas na Língua, da autoria de Dora Santos Rosa, publicado em 2014.
Ministra da Cultura lamenta a morte
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, lamentou a morte do jornalista, considerando-o «uma das figuras mais marcantes do jornalismo do pós-25 de Abril».
Numa mensagem publicada na rede social X, a governante destacou o percurso de Joaquim Letria enquanto profissional multifacetado da comunicação, fundador de vários projetos editoriais e autor de diversos livros.
«O país perde uma das figuras mais marcantes do jornalismo do pós-25 de Abril», escreveu.
A morte de Joaquim Letria representa o desaparecimento de um dos protagonistas de uma geração que ajudou a transformar o jornalismo português após a Revolução de Abril, num percurso que atravessou a imprensa, a rádio, a televisão, a vida institucional e o ensino.




































