Estudo europeu revela forte dependência do automóvel e identifica barreiras de acesso, custo e rede como principais entraves à mobilidade coletiva
Portugal surge entre os países da Europa onde menos se utilizam transportes públicos, a par de Itália e Chipre, segundo um estudo internacional que analisa os padrões de mobilidade no continente. Os dados, referentes a 2024, indicam que mais de 75% dos portugueses recorrem raramente ou nunca aos transportes coletivos.
O relatório, elaborado pelo Öko-Institut a pedido da delegação da Europa Central e Oriental da Greenpeace, procurou avaliar a utilização dos transportes públicos com base em quatro dimensões: disponibilidade, custo, acessibilidade e adequação das redes.
Baixa utilização e forte dependência do automóvel
De acordo com o estudo, apenas cerca de 10% dos portugueses utiliza transportes públicos diariamente, enquanto 7% o faz semanalmente e outros 7% pelo menos uma vez por mês. Em sentido inverso, quase 70% da população afirma não recorrer aos transportes coletivos.
A análise sugere ainda que a utilização reduzida não se deve apenas a fatores económicos ou estruturais, mas também a opções de mobilidade centradas no automóvel particular, apontadas como tendência cultural enraizada em vários países europeus.
Barreiras estruturais e desigualdades territoriais
O estudo identifica a falta de oferta como uma das principais limitações. Mais de metade dos inquiridos na Europa refere não ter acesso adequado a transportes públicos na sua área de residência.
Em Portugal, esta realidade é mais evidente nas zonas rurais, onde cerca de 22% dos inquiridos afirma não utilizar transportes devido à inexistência de serviço, horários reduzidos ou baixa frequência de circulação. Nas áreas urbanas, essa percentagem é significativamente menor.
Outros fatores apontados incluem o tempo de deslocação, a acessibilidade e a perceção de inadequação da rede existente.
Mobilidade e “pobreza de transporte”
O relatório introduz ainda o conceito de “pobreza de transporte”, que descreve situações em que a falta de alternativas adequadas limita o acesso a emprego, serviços essenciais e participação social, podendo contribuir para o agravamento de desigualdades económicas.
Entre os impactos identificados estão o tempo excessivo de viagem, custos elevados para os agregados familiares e falta de condições de segurança ou acessibilidade, especialmente para pessoas com mobilidade reduzida.
Desafios para a transição da mobilidade
A análise sublinha que a transição para modelos de mobilidade mais sustentáveis exige não apenas investimento em infraestruturas, mas também alterações comportamentais e culturais.
Apesar de existirem exemplos de políticas de incentivo ao transporte público, como passes de baixo custo em áreas metropolitanas, o estudo considera que a expansão e melhoria das redes continua a ser determinante para aumentar a adesão.
A organização responsável alerta ainda para a necessidade de garantir que políticas ambientais não agravem desigualdades sociais, defendendo uma transição equilibrada entre sustentabilidade e justiça social.


































