Desfile da Mordomia voltou a ser um dos momentos altos da Romaria da Senhora d’Agonia, com mulheres de todo o país a exibirem os trajes tradicionais e milhares de peças de ouro pelas ruas da cidade.
VIANA DO CASTELO | Mil mulheres atravessaram ontem as ruas de Viana do Castelo trajadas a rigor, num dos momentos mais aguardados da Romaria da Senhora d’Agonia. O Desfile da Mordomia voltou a encher a cidade de cor, tradição e ouro, numa manifestação pública daquilo que os vianenses chamam de ‘chieira’.
A palavra resume o orgulho pela tradição e pela cultura de Viana do Castelo. Mafalda Brandão, jovem de 21 anos, natural de Areosa e estudante de Enfermagem, conhece bem o significado da expressão. Este ano foi escolhida como mordoma da Romaria, assumindo a missão de representar a festa e dar a cara pelo programa oficial.
“Chieira é o orgulho com que nós aqui em Viana mantemos a nossa tradição, a nossa cultura”, explicou.
O ouro que passa de geração em geração
No desfile, a tradição não se mede apenas pela beleza dos trajes. O ouro é uma das imagens mais marcantes da Mordomia e, para muitas das participantes, cada peça conta uma história familiar.
Grande parte das joias usadas pelas mulheres foi transmitida de geração em geração, passando de avós para netas e de mães para filhas. Entre os elementos mais reconhecidos estão os tradicionais corações de Viana, mas também cruzes, cordões, brincos e outras peças que fazem parte das famílias minhotas há décadas.
Durante muito tempo, o ouro teve também uma função económica. No Minho, as joias representavam uma forma de poupança e segurança para as mulheres, sendo frequentemente oferecidas em momentos importantes da vida, como casamentos ou batizados.
Ontem, essa herança familiar saiu à rua e transformou-se num dos maiores espetáculos da Romaria.
Cerca de 800 mordomas são de Viana
Das cerca de mil mulheres que participaram no desfile, quase 800 são do concelho de Viana do Castelo, com representação de todas as freguesias.
A mais nova participante tinha 14 anos, idade mínima permitida para integrar o cortejo, enquanto a mais velha tinha 83 anos.
A diferença de idades ajuda a explicar a dimensão intergeracional da tradição. Mães, filhas, avós e netas partilham o mesmo desfile e, em muitos casos, as mesmas peças de ouro, mantendo vivo um património que passa de geração em geração.
Ouro avaliado em milhões
A quantidade de ouro exibida ao longo do percurso foi impressionante. As estimativas apontam para um valor total de cerca de 100 milhões de euros em joias usadas pelas participantes.
A dimensão desse património obrigou também a um reforço das medidas de segurança.
A PSP mobilizou várias valências para acompanhar a Romaria, com especial atenção ao Desfile da Mordomia. Foram utilizadas unidades especializadas, equipas motorizadas e Equipas de Prevenção e Reação Imediata, além de meios de vigilância aérea.
Drones sobrevoaram o percurso e foram instaladas câmaras em pontos estratégicos, permitindo uma monitorização permanente.
Segurança reforçada para proteger o ouro
Telma Fernandes, intendente e chefe da Área de Operações do Comando Distrital de Viana do Castelo, explicou que o dispositivo policial foi reforçado precisamente devido à elevada concentração de ouro no desfile.
O objetivo, segundo a responsável, foi garantir que as mulheres que participavam no cortejo se sentissem seguras, mas também que o público pudesse acompanhar o desfile com tranquilidade.
A segurança contou ainda com elementos provenientes de Braga e do Porto.
Desfile começou com uma hora de atraso
O cortejo saiu dos jardins do antigo Governo Civil já com algum atraso. O início estava previsto para as 16 horas, mas o desfile só chegou ao fundo da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra por volta das 17 horas.
Com temperaturas amenas, na ordem dos 22 graus, milhares de pessoas concentraram-se ao longo do percurso para assistir à passagem das mordomas.
A Avenida dos Combatentes da Grande Guerra voltou a ser um dos pontos de maior afluência de público.
Bombos, gigantones e os primeiros trajes
Na frente do desfile surgiram os Bombos de S. Tiago, de Vila Nova de Anha, seguidos pelos Ás de Rufar, de Subportela, pelos Zés Pereiras de Antas, Esposende, e pelos Bombos de S. Sebastião, de Deocriste.
Os gigantones acompanhavam o ritmo dos tambores, criando o ambiente festivo que antecede a entrada das mordomas.
As primeiras mulheres a surgir apresentavam o Traje de Festa da Ribeira, associado às comunidades ligadas à pesca e marcado por cores mais discretas e por uma menor quantidade de ouro.
Pouco depois, o vermelho do tradicional Traje à Vianesa ganhou predominância, acompanhado pelo brilho das peças de ouro. Pelo percurso surgiram ainda grupos vestidos de preto, azul ou verde, numa sucessão de cores e padrões que transformou as ruas de Viana num verdadeiro desfile de tradição minhota.
Um desfile que transforma tradição em espetáculo
Mais do que um simples cortejo, o Desfile da Mordomia é uma demonstração pública de uma tradição que continua profundamente ligada à identidade de Viana do Castelo.
A ‘chieira’ está no traje cuidadosamente preparado, no ouro herdado da família, na forma de o usar e, sobretudo, no orgulho de mostrar uma cultura que continua a passar de geração em geração.
Depois do desfile, a Romaria da Senhora d’Agonia prossegue hoje com outro dos seus momentos mais emblemáticos. Às 14h30, na Capela da Senhora d’Agonia, realiza-se a Solene Celebração Eucarística, seguida da tradicional Procissão ao Mar.









































