Mulher do almirante Gouveia e Melo é o alvo de ameaças

As ameaças ao almirante Gouveia e Melo passaram a abranger também a mulher. Os investigadores acreditam que o caso estará relacionado com o afastamento da Marinha dos dois fuzileiros acusados da morte do agente da PSP Fábio Guerra. Outra hipótese diz respeito aos gangues infiltrados nas Forças Armadas, que se dedicam a negócios escuros. Entretanto, o almirante ainda não tem segurança pessoal.

As ameaças diretas que o almirante Gouveia e Melo tem recebido, que levaram à abertura de um inquérito pelo Ministério Público, abrangeram nas últimas semanas a própria mulher – uma diplomata de carreira cujo número de telefone é conhecido de poucas pessoas, o que é considerado pelos investigadores como mais um sinal da elevada perigosidade dos seus autores. Uma semana depois de o inquérito ter sido aberto, porém, o chefe do Estado-Maior da Armada ainda não tem segurança pessoal, ao contrário do que costuma suceder neste tipo de situações.

As ameaças, sempre por SMS para os telemóveis, foram gradualmente subindo de tom, com exigências concretas, num verdadeiro esquema de extorsão. E foi quando a mulher também passou a recebê-las que o chefe do Estado-Maior da Armada participou o que se estava a passar.

Segundo o Nascer do SOL apurou junto de fontes judiciais, os factos já recolhidos pelos investigadores indiciam como uma das possíveis origens das ameaças elementos ligados aos dois fuzileiros que mataram o agente da PSP Fábio Guerra, em março deste ano, à saída de uma discoteca de Lisboa. Logo na altura, Gouveia e Melo, fez publicamente uma violenta condenação do sucedido. Há duas semanas, após o pedido dos dois fuzileiros para que lhes fosse renovado o contrato, encontrou a oportunidade perfeita para correr com eles da Marinha. Poderá ter sido este facto que despoletou o resto.

Outra hipótese em cima da mesa é a que aponta para elementos de redes criminosas no interior da Marinha, com ligações a gangues da Margem Sul e a associações criminosas que controlam a noite da Lisboa e se dedicam a atividades ilícitas. Nomeadamente, esquemas de extorsão a estabelecimentos noturnos, venda de esteroides a proprietários e frequentadores de ginásios e clubes de boxe.

Almirante indefere renovação de contratos

Com efeito, duas semanas antes de terem começado as intimidações, Gouveia e Melo indeferiu os pedidos de renovação de contrato que Cláudio Coimbra e Vadym Hrynko lhe dirigiram, apesar de estarem acusados do crime de homicídio qualificado. Outra pista que reforça as suspeitas de ligações a este caso é a exigência feita pelos autores das ameaças no sentido de que Gouveia e Melo readmitisse o ex-capelão da Marinha, Licínio Luís.

Recorde-se que este, após a morte do elemento da PSP e a reação de repúdio do chefe do Estado-Maior da Armada, publicou no Facebook uma mensagem em que defendia os fuzileiros, questionando Gouveia e Melo se também nunca tinha «bebido uns copos a mais» na sua juventude – o que acabaria por levar ao seu afastamento.

Finalmente, a forma de atuação dos autores das ameaças é muito semelhante à das que são usadas nas cobranças difíceis. Começaram por insinuar que teriam informações pouco abonatórias sobre o militar e depois, perante a ausência de reação, passaram à chantagem e coação: se ele não aceitasse cumprir as suas exigências, a informação seria tornada pública.

Os investigadores acreditam que, perante o silêncio de Gouveia e Melo, as ameaças passaram a ser feitas também à mulher, para mostrar que há capacidade e vontade de executar a ameaça, passando das palavras aos atos.
 
Redes sombrias entre militares

Não é a primeira vez que a infiltração das Forças Armadas por redes ligadas ao crime organizado é motivo de preocupação das chefias militares. Forças de elite, como os fuzileiros ou os comandos, são particularmente apetecíveis para o recrutamento por estes grupos, uma vez que ali adquirem treino de combate, conhecimentos técnicos, acesso a armamento e, até, a novos mercados, quando integram missões internacionais. Recorde-se da operação Miríade, na qual se detetou uma rede de tráfico de diamantes e ouro criada por comandos a partir da República Centro-Africana.

Já na altura, em novembro do ano passado, fontes próximas do chefe do Estado-Maior do Exército (CEMA) admitiam ao Nascer do SOL que o problema era profundo. Não só as Forças Armadas têm recrutado cada vez mais em zonas suburbanas, indo buscar jovens criados em ambientes de privação, como os processos de seleção apenas conseguem excluir aqueles que tenham cadastro. Ou seja, se um potencial recruta estiver a ser investigado por ligação ao crime organizado, por exemplo, mas não tiver sido condenado, pode entrar livremente nos quadros militares.

Alguns «já chegam lá com o esquema montado» – conta ao nosso jornal um chefe militar. Depois de saírem das forças de elite, vão para a PSP e para a GNR, onde têm o acesso facilitad