Seguradora da Carris sustenta, em tribunal, que o sofrimento de uma das vítimas mortais durou menos de um minuto. Fidelidade garante que não está a recusar indemnizações e lamenta expressões que possam ter causado sofrimento adicional às famílias. Carlos Moedas classificou as declarações como «vergonhosas» e «lamentáveis».
Mais de um ano depois do acidente do Elevador da Glória, em Lisboa, que provocou 16 mortos e 24 feridos, a posição assumida pela Fidelidade, seguradora da Carris, está a gerar polémica. Em tribunal, a companhia invocou a curta duração do sofrimento de uma das vítimas mortais para contestar o valor da indemnização reclamada pela família, uma argumentação que motivou críticas dos representantes dos familiares e da Câmara Municipal de Lisboa.
«Teve uma duração inferior a um minuto»
De acordo com informações divulgadas pela RTP, a Fidelidade alegou, na contestação apresentada ao Tribunal Administrativo de Lisboa, que o sofrimento da vítima, embora intenso, não se prolongou no tempo.
«Decorreram cerca de 33 segundos desde a preparação da viagem, 20 segundos desde o início do movimento e mais cerca de 2 a 3 segundos até à imobilização total. Tal significa que o sofrimento que precedeu o falecimento da vítima, por intenso que possa ter sido, não se prolongou no tempo. Bem pelo contrário, teve uma duração inferior a um minuto», refere o documento citado pela estação pública.
O argumento foi apresentado no âmbito de um processo em que a família de Ana Paula Lopes, trabalhadora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que morreu no acidente, reclama uma indemnização de cerca de um milhão de euros.
O advogado Nuno Pinto Coelho de Faria, que representa a família, manifestou «perplexidade» perante a posição da seguradora. Na sua leitura, a argumentação levanta também questões sobre a forma como a companhia avalia a segurança do equipamento, tendo em conta que, na contestação, terá defendido que um acidente daquela natureza não era totalmente imprevisível e que o Elevador da Glória não podia ser considerado um meio de transporte altamente confiável.
Fidelidade rejeita estar a recusar indemnizações
Perante a polémica, a Fidelidade veio a público rejeitar que esteja a recusar indemnizar as vítimas e os seus familiares.
A seguradora reafirmou o compromisso de assegurar uma «justa indemnização» às pessoas afetadas pelo descarrilamento, ocorrido em setembro do ano passado, defendendo que a diferença entre os valores reclamados e as propostas apresentadas não significa uma recusa de pagamento.
A companhia afirmou ainda ter apresentado uma proposta de várias centenas de milhares de euros à família em causa, sustentando que o montante foi calculado com base nos critérios legais e jurisprudenciais aplicáveis e validado pela Comissão Técnica Independente.
A Fidelidade reconheceu, contudo, que, no decurso de um processo judicial, as alegações das partes nem sempre utilizam as formulações mais adequadas, sobretudo em situações marcadas por profundo sofrimento humano.
Nesse sentido, lamentou que algumas expressões utilizadas possam ter provocado sofrimento adicional às vítimas e às respetivas famílias.
Carlos Moedas fala em declarações «vergonhosas»
A posição da seguradora mereceu também uma reação do presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Carlos Moedas classificou as afirmações divulgadas como «vergonhosas» e «lamentáveis», manifestando o desconforto da autarquia perante os argumentos apresentados.
«As informações que nós ouvimos, pelo menos através da comunicação social sobre a seguradora, são vergonhosas, são lamentáveis, não se percebe», afirmou o autarca durante uma reunião pública de vereadores nos Paços do Concelho.
Carlos Moedas acrescentou que notificou a seguradora para lhe transmitir o desagrado do município relativamente a declarações daquela natureza.
Também o vice-presidente da Câmara, Gonçalo Reis, considerou as afirmações «lamentáveis». O responsável defendeu que o processo de indemnização deve decorrer com diligência e rapidez, assegurando que a autarquia não colocará obstáculos à assinatura dos acordos que lhe competem.
2,5 milhões de euros em despesas e indemnizações
Segundo os dados divulgados pela Fidelidade, a seguradora já suportou diretamente ou assumiu a responsabilidade pelo reembolso de aproximadamente 2,5 milhões de euros em indemnizações e despesas relacionadas com o acidente.
Dos processos relativos às 16 vítimas mortais, foram alcançados acordos com as famílias de quatro vítimas. Oito processos encontram-se em negociação, um está em fase judicial, outro decorre no âmbito de acidentes de trabalho, com pagamento de pensões provisórias, e dois aguardam a entrega de documentação.
Quanto às 24 pessoas feridas, a seguradora afirma que continuam a beneficiar do acompanhamento necessário. A avaliação definitiva dos danos ficará dependente da consolidação clínica das respetivas situações.
O acidente do Elevador da Glória continua, assim, a ter consequências judiciais e humanas para as famílias das vítimas. A polémica em torno da contestação da Fidelidade acrescenta agora uma nova dimensão ao processo, num momento em que permanecem por concluir várias negociações de indemnização.


































