Entre exorcismos, violência e culpa: os relatos marcantes de vítimas das “terapias de conversão”

Exorcismos

Histórias de trauma reacendem debate sobre eventual descriminalização destas práticas em Portugal

Mais de երեք décadas depois de a Organização Mundial da Saúde ter retirado a homossexualidade da lista de doenças psiquiátricas, continuam a surgir em Portugal relatos de pessoas submetidas às chamadas “terapias de conversão”, práticas amplamente condenadas por especialistas e associações de defesa dos direitos humanos.

Os testemunhos de Maria e Miguel — nomes fictícios — revelam experiências marcadas por sofrimento psicológico, violência física, culpa religiosa e tentativas de repressão da identidade sexual e de género.

“Tentavam curar-me”: infância marcada pelo medo e repressão

Maria, mulher trans nascida nos anos 70, cresceu numa família profundamente conservadora e religiosa, ligada às Testemunhas de Jeová.

Desde muito nova sentiu que era diferente, mas as manifestações da sua identidade eram reprimidas dentro de casa. As brincadeiras com maquilhagem ou roupas femininas eram castigadas com isolamento e longos períodos fechada num quarto escuro.

Durante anos acreditou que precisava de “mudar” e procurou ajuda junto de um psicólogo em Lisboa, descrito como especializado em questões espirituais e identidade de género.

Segundo o relato, o profissional admitiu ter poucas “vitórias de conversão”, mas convenceu-a de que seria possível alterar a sua orientação sexual através de esforço e disciplina.

Sessões de exorcismo agravaram estado psicológico

O acompanhamento psicológico acabou por evoluir para práticas religiosas extremas. Maria contou que foi encaminhada para uma igreja evangélica, onde participava em sessões privadas de exorcismo conduzidas por pastores.

“Era algo terrível. Muitas vezes amarravam-me”, recordou, descrevendo episódios de despersonalização e sofrimento intenso.

Além dos encontros religiosos, o psicólogo impunha exercícios considerados dolorosos e humilhantes, como permanecer nua em frente ao espelho até “aceitar” o próprio corpo.

O impacto psicológico foi devastador. Maria revelou que entrou numa profunda depressão e chegou a ter pensamentos suicidas, acabando por abandonar os “tratamentos” e procurar apoio especializado no Hospital Júlio de Matos.

Jovem relata agressões após recusar “tratamento”

Também Miguel cresceu num ambiente religioso conservador ligado a uma igreja evangélica, onde a homossexualidade era constantemente apresentada como algo errado.

Aos 16 anos revelou a um professor da igreja que era gay. Dias depois, os pais marcaram consultas com um psicólogo cristão que procurava identificar “a origem” da sua orientação sexual.

Segundo Miguel, as sessões focavam-se na relação familiar, no bullying homofóbico sofrido na escola e em leituras religiosas sobre masculinidade e fé.

Quando decidiu abandonar as consultas, a situação agravou-se. O jovem acusa os pais de o terem agredido fisicamente para o obrigar a repetir frases sobre aquilo que consideravam ser a “normalidade” sexual. A mãe nega as acusações.

Hoje afastado da família e da igreja, Miguel tornou-se um dos ativistas mais vocais contra as terapias de conversão em Portugal.

Ordem dos Psicólogos alerta para riscos graves

A Ordem dos Psicólogos Portugueses considera que estas práticas assentam numa falsa premissa: a ideia de que a homossexualidade ou a identidade de género divergente constituem doenças que precisam de tratamento.

Miguel Ricou, representante da Ordem, alerta que estas intervenções aumentam o sofrimento emocional e podem potenciar comportamentos suicidas.

Já Helder Bertolo lembra que muitas vítimas crescem convencidas de que são “pecadoras, criminosas ou doentes”, internalizando sentimentos de culpa e rejeição.

Debate sobre descriminalização gera preocupação

O tema regressou recentemente ao centro do debate político após a entrada no parlamento de uma petição com cerca de 17 mil assinaturas que pretende discutir a descriminalização das chamadas “técnicas de conversão”.

A possibilidade preocupa especialistas, ativistas e vítimas destas práticas, que receiam uma normalização de métodos considerados abusivos e perigosos.

Maria acredita que uma eventual descriminalização poderá levar ao aumento destas intervenções e agravar os casos de sofrimento psicológico e suicídio.

“O sofrimento é indescritível. Isto é um crime contra as pessoas”, afirmou.

Tanto a Ordem dos Psicólogos como associações de apoio à comunidade LGBTI+ defendem que qualquer tentativa de alteração da orientação sexual ou identidade de género representa uma violação da dignidade humana e da saúde mental.

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