Investigação internacional demonstra que intervenção complementar às estatinas pode reduzir em 25% os eventos cardiovasculares major e evitar novos enfartes, AVC e mortes
Sobreviver a um enfarte do miocárdio não significa que o perigo tenha passado. Um novo estudo internacional veio reforçar a importância da intervenção precoce na prevenção secundária cardiovascular, demonstrando que o risco de novos eventos permanece elevado mesmo após a alta hospitalar e apesar da terapêutica convencional.
Os dados do ensaio clínico REDUCE-IT (Reduction of Cardiovascular Events with Icosapent Ethyl-Intervention Trial), publicados no prestigiado New England Journal of Medicine, revelam que a introdução de uma abordagem terapêutica complementar às estatinas permitiu reduzir em 25% os eventos cardiovasculares major, incluindo morte cardiovascular, enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), necessidade de revascularização coronária e episódios de angina instável.
O estudo envolveu mais de oito mil doentes já medicados com estatinas e com níveis de colesterol LDL controlados. Ainda assim, os investigadores concluíram que persistia um risco residual cardiovascular significativo associado a mecanismos inflamatórios e ateroscleróticos que não são totalmente eliminados pela terapêutica tradicional.
Benefícios clínicos considerados “expressivos”
Um dos dados mais destacados pelos investigadores prende-se com o chamado Número Necessário para Tratar (NNT), considerado particularmente baixo para este tipo de intervenção. Segundo os resultados, bastou tratar 21 doentes para evitar um evento cardiovascular grave.
Os benefícios começaram a ser observados precocemente e mantiveram-se consistentes ao longo do acompanhamento clínico.
Os resultados do REDUCE-IT já foram integrados em recomendações internacionais, incluindo as guidelines da European Society of Cardiology (ESC) e da American Heart Association (AHA), alterando a forma como a comunidade médica encara o risco residual após um enfarte.
Doentes com enfarte recente registam ganhos ainda maiores
Uma análise pós-hoc publicada recentemente no European Heart Journal reforçou ainda mais a relevância desta estratégia terapêutica, sobretudo em doentes que tinham sofrido um enfarte recentemente.
Segundo os novos dados, os primeiros meses após um enfarte representam uma “janela crítica de oportunidade clínica”, período em que a intervenção precoce pode reduzir significativamente a probabilidade de novos eventos cardiovasculares.
Nesta subanálise, os doentes com síndromes coronárias agudas recentes registaram reduções particularmente expressivas:
- menos 36% no risco de morte cardiovascular ou novo enfarte;
- redução de 34% em enfartes fatais ou não fatais;
- menos 38% na necessidade de revascularização coronária;
- diminuição de cerca de 44% na necessidade de revascularização urgente.
Os investigadores sublinham ainda que estes benefícios foram alcançados sem aumento relevante do risco hemorrágico, mesmo em doentes sujeitos a dupla antiagregação plaquetária.
“O enfarte não termina quando o doente sai do hospital”
Para o cardiologista Rui Batista, os resultados têm impacto direto na prática clínica e demonstram a importância de uma abordagem mais abrangente na prevenção cardiovascular.
“O enfarte não termina quando o doente sai do hospital. Os primeiros meses continuam a ser um período de enorme fragilidade e risco elevado. Intervir cedo pode fazer a diferença entre evitar ou não um novo evento grave”, sublinha o especialista.
O médico considera que ignorar o chamado risco residual cardiovascular significa desperdiçar uma oportunidade importante de reduzir mortes, incapacidade e hospitalizações futuras.
Risco residual continua a ser desafio global
Os especialistas alertam que muitos doentes mantêm inflamação vascular ativa, instabilidade das placas ateroscleróticas e níveis elevados de triglicéridos mesmo após controlo rigoroso do colesterol LDL e tratamento intensivo com estatinas.
Por isso, cresce o consenso científico de que a prevenção secundária deve ir além da simples redução do colesterol, passando também pelo combate aos mecanismos inflamatórios e aterogénicos responsáveis pela progressão da doença cardiovascular.
A nova evidência científica reforça a necessidade de vigilância contínua após um enfarte e de estratégias terapêuticas mais abrangentes para melhorar o prognóstico e aumentar a sobrevivência a longo prazo.
Para os especialistas, a mensagem é clara: atuar cedo pode salvar vidas.



































