PS surpreende no Parlamento com estratégia que impediu resposta de Montenegro a José Luís Carneiro

José Luís Carneiro

Secretário-geral socialista interveio apenas nos minutos finais do debate quinzenal, quando o primeiro-ministro já não dispunha de tempo para responder

O debate quinzenal desta quarta-feira na Assembleia da República ficou marcado por uma estratégia pouco habitual do José Luís Carneiro, que reservou a sua intervenção para os últimos quatro minutos da sessão, numa altura em que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, já tinha esgotado o tempo disponível para responder.

Antes da intervenção do líder socialista, as questões ao chefe do Governo foram colocadas pelos deputados socialistas António Mendonça Mendes, sobre fiscalidade, Mariana Vieira da Silva, sobre saúde, e Luís Testa, sobre habitação.

Montenegro ironizou estratégia socialista

O contexto do debate, realizado poucas horas antes do encontro entre Portugal e a República Democrática do Congo para o Mundial de Futebol, serviu de pretexto para uma observação irónica do primeiro-ministro.

Referindo-se à distribuição das intervenções dos socialistas, Luís Montenegro comentou que o PS parecia estar a “fazer rodar a equipa”, acrescentando que os “golos na própria baliza sucedem-se”, numa alusão futebolística que provocou reações e risos nas bancadas da maioria.

Carneiro questionou sustentabilidade da Segurança Social

Na sua intervenção final, José Luís Carneiro centrou-se na situação económica do país, alertando para uma alegada perda de competitividade da economia portuguesa nos mercados internacionais.

O líder socialista questionou ainda o Governo sobre uma das propostas defendidas pelo líder do André Ventura no âmbito das negociações sobre a legislação laboral: a redução da idade da reforma.

Segundo os números apresentados por José Luís Carneiro, uma descida de um ano e nove meses na idade de acesso à reforma poderia representar um impacto de cerca de 4,5 mil milhões de euros no sistema de pensões.

O secretário-geral do PS questionou de que forma o Governo financiaria esse montante, interrogando se tal implicaria cortes nas pensões, aumento da Taxa Social Única ou subida de impostos.

Contudo, devido à gestão do tempo parlamentar, Luís Montenegro já não dispunha de minutos para responder diretamente a estas questões.

Fiscalidade, saúde e habitação dominaram o debate

Ao longo da sessão, os deputados socialistas criticaram várias áreas da governação.

Na fiscalidade, António Mendonça Mendes acusou o executivo de ter aumentado a receita obtida através do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), alegando um encaixe adicional de 732 milhões de euros. Luís Montenegro rejeitou a acusação e garantiu que o Governo não aumentou impostos.

Na saúde, Mariana Vieira da Silva sustentou que o plano de emergência implementado pelo executivo produziu resultados inferiores aos prometidos, apontando o aumento do número de utentes sem médico de família e o agravamento das listas de espera. O primeiro-ministro reconheceu a existência de mais cerca de 80 mil utentes sem médico atribuído, mas contrapôs que o sistema passou a abranger mais 354 mil pessoas desde 2024.

Já no tema da habitação, Luís Testa acusou o Governo de ter contribuído para o aumento dos custos do setor. Em resposta, Montenegro defendeu que o país registou um crescimento do licenciamento habitacional, algo que, segundo afirmou, não acontecia desde 2008.

Clima político marcado por acusações mútuas

Durante o debate, o primeiro-ministro acusou o PS de assumir uma postura mais radical e intransigente na oposição, enquanto os socialistas insistiram nas críticas à atuação do executivo em áreas como a economia, saúde, fiscalidade e habitação.

A sessão terminou com a intervenção de José Luís Carneiro sem direito a contraditório direto do chefe do Governo, um desfecho que acabou por se tornar um dos momentos mais comentados do debate quinzenal.