Declarações do presidente do IHRU sobre os sacrifícios dos jovens marcaram o arranque da manifestação na Avenida Central. Cerca de 200 pessoas participaram no início do protesto, que reclama rendas acessíveis e mais habitação pública.

As declarações de Benjamim Pereira, presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), sobre a capacidade de sacrifício dos jovens deram força à manifestação pelo direito à habitação que arrancou este domingo, pelas 15h00, na Avenida Central, em Braga. Cerca de duas centenas de pessoas juntaram-se junto ao coreto para exigir respostas à crise habitacional e ao aumento do custo de vida.

«Ter dois trabalhos para pagar a renda e comer não é sacrifício?», questionou Juliana Oliveira, porta-voz dos manifestantes, no início da iniciativa, apontando as dificuldades enfrentadas por quem tenta garantir condições básicas de vida.

A responsável deu ainda exemplos de situações que, na sua perspetiva, demonstram os sacrifícios exigidos à população mais jovem, desde adiar consultas médicas ou dentárias até abandonar os estudos por falta de recursos financeiros.

«E essas pessoas sabem o que é sacrifício? Acham que sacrifício é ser convidado para um jantar de família e terem de comer camarão-tigre em vez de lagosta?», criticou.

Declarações do presidente do IHRU geraram polémica

A contestação surge na sequência de declarações feitas por Benjamim Pereira, numa sessão sobre a proposta do Plano Diretor Municipal de Gaia, na quinta-feira. Na ocasião, o presidente do IHRU questionou se a sociedade atual estaria disponível para o nível de sacrifício das gerações anteriores, recordando que os próprios avós e o pai emigraram para conseguir uma casa.

No dia seguinte, o responsável reconheceu que as expressões utilizadas sobre a capacidade de sacrifício dos jovens foram infelizes. Esclareceu também que não pretendia desvalorizar as dificuldades no acesso à habitação nem sugerir a emigração como solução.

Em Braga, as palavras contribuíram para dar maior visibilidade a um protesto que reclama mudanças nas políticas de habitação e melhores condições de vida para a população.

«Não é só a habitação»: protesto junta várias reivindicações

Juliana Oliveira, gestora de projetos de 25 anos, partilha casa com outras duas pessoas e considera atualmente «impensável» comprar habitação própria.

A porta-voz sublinhou que a manifestação vai além dos problemas relacionados com as rendas e a compra de casa. «Não é só a habitação que aqui está em causa. É também o custo de vida, é também a educação, é também a paz, é toda uma série de questões que fazem de nós, jovens de hoje, uma geração de muitos sacrifícios», afirmou.

A organização apelou a uma participação pacífica e pediu aos presentes que evitassem comportamentos que pudessem perturbar a iniciativa.

«Não somos arruaceiros», declarou Juliana Oliveira, apelando também ao cuidado com as beatas de cigarro e ao consumo de álcool e drogas durante o protesto.

O programa inclui música, uma assembleia popular e um jantar volante, preparado numa cantina improvisada com alimentos levados pelos participantes. Estão também previstas equipas de apoio às crianças, profissionais de saúde para eventuais primeiros socorros e mediadores para ajudar a resolver possíveis conflitos.

Manifestantes exigem mudanças na política de habitação

Os protestos pelo direito à habitação, iniciados no Porto duas semanas antes, têm-se estendido a várias localidades do país. Os participantes prometem continuar a mobilização até que o Governo abandone a nova proposta de alteração à lei das rendas e adote medidas para facilitar o acesso à habitação.

Entre as reivindicações estão o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, a proibição da compra de casas por fundos imobiliários, o reforço da habitação pública, a imposição de limites às rendas e a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais.

A proposta do Governo para alterar o regime do arrendamento urbano foi aprovada na generalidade a 30 de setembro, com os votos favoráveis de PSD, IL e CDS-PP, a abstenção do Chega e os votos contra dos partidos à esquerda. O diploma encontra-se em discussão na especialidade, na comissão parlamentar de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação.

Preço das casas continua a subir

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados na sexta-feira, mostram que o preço das casas em Portugal aumentou 18% no segundo trimestre deste ano, face ao mesmo período do ano anterior, atingindo uma média de 2.445 euros por metro quadrado.

Em comparação com os primeiros três meses do ano, a subida foi de 4,6%, reforçando a pressão sobre as famílias que procuram comprar casa num mercado marcado pelo aumento dos preços.

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