Milhares de veículos falham recolhas das marcas em Portugal. Porquê?

Quase 87 mil viaturas têm ações de recall por resolver. Falhas no contacto com proprietários e desvalorização do risco ajudam a explicar o problema — que pode levar à reprovação na inspeção.

Cerca de 87 mil veículos em Portugal continuam com ações de recolha pendentes, apesar de terem sido identificadas possíveis deficiências pelos fabricantes. A maioria dos casos arrasta-se há vários anos e, em muitos, as marcas não conseguem sequer contactar os proprietários.

Os dados foram avançados pelo Jornal de Negócios e confirmados pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP). Em dezembro, a ACAP, em parceria com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) e o Instituto do Consumidor, lançou uma plataforma online que permite aos condutores verificar se o seu veículo está abrangido por alguma campanha de “recall”. A consulta é simples e pode ser feita através da matrícula ou do número de identificação do veículo (VIN).

Contactos falham em grande número

Segundo a ACAP, as marcas notificam os proprietários por via postal, recorrendo a carta registada, sendo que a reparação é gratuita. No entanto, a taxa de insucesso no contacto é considerada “muito elevada”.

A principal razão apontada prende-se com a dificuldade em localizar o atual proprietário do automóvel. Mudanças de morada não atualizadas ou a venda do veículo sem registo atempado de novo titular são situações frequentes que impedem a notificação eficaz.

Além disso, há casos de desinteresse ou de subestimação da gravidade da situação. Alguns proprietários interpretam erradamente estas campanhas como ações promocionais e não como medidas de segurança, optando por não se deslocar ao concessionário para realizar a intervenção.

A ACAP admite que existe “uma situação acumulada de vários anos”, o que ajuda a explicar o elevado número de processos ainda por concluir. A nova plataforma pretende aumentar a taxa de resolução, incentivando os próprios condutores a verificarem a situação das suas viaturas.

Falhar um recall pode levar à reprovação na inspeção

Ignorar uma campanha de recolha pode ter consequências diretas na inspeção periódica obrigatória. De acordo com esclarecimentos da ACAP e com o Anexo II da deliberação do IMT de julho de 2020, um veículo que não tenha cumprido uma chamada para reparação pode ser reprovado.

Se a deficiência estiver relacionada com controlo de emissões ou condições de circulação, poderá ser classificada como deficiência de Tipo 2 (grave). Já nos casos que envolvam falhas sérias de segurança, a situação poderá ser considerada de Tipo 3 (muito grave).

Em ambos os cenários, o veículo é reprovado na inspeção. Nas anomalias de Tipo 2, o automóvel deve ser reinspecionado no prazo de 30 dias e não pode transportar passageiros nem carga. Nas de Tipo 3, apenas é permitida a deslocação até ao local de reparação e o regresso ao centro de inspeção.

O objetivo destas medidas é garantir que potenciais falhas técnicas não colocam em risco a segurança rodoviária nem o meio ambiente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here