Centenário do golpe militar de 1926 deve servir para refletir sobre democracia e extremismos, defende Rui Ferreira

Bracarólogo considera contraproducente apagar símbolos históricos e alerta para os sinais de descontentamento social que alimentam movimentos extremistas.

Golpe de 28 de Maio de 1926 assinala esta quinta-feira o seu centenário, numa data que marcou o fim da I República Portuguesa e abriu caminho à ditadura militar que viria mais tarde a dar origem ao Estado Novo.

Em Braga, a efeméride ficou marcada por uma ação antifascista junto à estátua do general Manuel Gomes da Costa, instalada no Largo do Pópulo desde 1966. Durante o protesto, o monumento foi coberto com uma faixa e colocado um cartaz com a frase: “Aqui jaz o fascismo português. Não deixaremos que ressuscite”.

Para o bracarólogo Rui Ferreira, este tipo de ações pode revelar-se contraproducente, defendendo antes uma abordagem assente na reflexão histórica.

“Acontecimentos fazem parte da história, a história tem que ser assumida, e agora o que é que nós fazemos com a história? Refletimos a partir dela”, afirmou.

“Perceber porque surgem movimentos de extrema-direita”

Segundo Rui Ferreira, o centenário do golpe militar pode servir também para compreender fenómenos políticos atuais e os fatores que contribuem para o crescimento de movimentos extremistas.

“Temos o dever também de perceber porque é que surgem movimentos de extrema-direita na atualidade, o que é que nos conduz até eles, porque há adesão de uma parte da população”, referiu.

O especialista considera que o descontentamento social, a instabilidade política e a perceção de corrupção podem criar terreno fértil para soluções consideradas radicais.

História como oportunidade de aprendizagem

Mais do que remover símbolos históricos, Rui Ferreira entende que estes momentos devem ser aproveitados para promover debate e consciência cívica.

“A Primeira República não trouxe coisas muito boas a Portugal e acho que devemos tirar essa lição também para os nossos dias. Quando o regime entra em corrupção e há instabilidade, as pessoas começam a olhar para esses movimentos como soluções viáveis, e isso é preocupante”, alertou.

O golpe militar de 28 de maio de 1926 teve início precisamente em Braga, liderado por Gomes da Costa, e conduziu ao fim da I República, instaurando um período ditatorial que duraria várias décadas em Portugal.

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