Costume ancestral mantém-se vivo no Minho e assinala a chegada de maio com flores à entrada das casas
A noite de 30 de abril volta a cumprir uma das tradições mais antigas do Norte de Portugal: a colocação dos “Maios” — também conhecidos como “Maias” — à porta das casas, um ritual profundamente enraizado sobretudo na região do Minho.
O costume consiste na recolha de flores, sendo a giesta a mais utilizada, para decorar entradas e portões, numa prática simbólica que assinala a chegada do mês de maio e que atravessa gerações.
No Alto Minho, esta tradição está frequentemente associada a celebrações religiosas como a Festa da Santa Cruz ou o Corpo de Deus. Algumas interpretações populares apontam mesmo para origens bíblicas, ligando o costume a uma narrativa em que o rei Herodes teria mandado colocar giestas à porta da casa onde estaria o menino Jesus — acabando, porém, por se confundir perante a multiplicidade de casas decoradas.
Do ponto de vista etnográfico, investigadores como Ernesto Veiga de Oliveira referem que, na faixa litoral atlântica — onde se inclui o Minho — a tradição não está associada a práticas alimentares. Já noutras regiões, como Trás-os-Montes e Beiras, existem costumes complementares, como o consumo de castanhas guardadas para esta data.
Há também crenças populares curiosas ligadas ao dia 1 de maio. Segundo o investigador Jorge Lage, existe a tradição de comer castanhas neste dia para evitar “mordeduras de burros”, numa expressão típica do imaginário popular.
A antiguidade da tradição é tal que existem registos históricos da sua proibição. Em Lisboa, no ano de 1402, uma carta régia chegou a penalizar quem cantasse “Maias” ou “Janeiras”, considerando essas práticas contrárias à lei religiosa da época.
Além das raízes locais, a celebração do mês de maio com flores tem paralelos noutras culturas, sendo frequentemente associada à deusa grega Maia, símbolo de fertilidade e renovação.
Hoje, entre crenças, história e tradição, os “Maios” continuam a marcar o calendário e a dar cor às portas de milhares de casas, mantendo viva uma herança cultural única.


































