Acusação de racismo leva ao cancelamento de espetáculo nos Festivais Gil Vicente em Guimarães

Atriz e encenadora Isabél Zuaa cancelou a estreia de “Afro Saloyá” após alegar ter sido alvo de ameaças e de uma conduta racista durante um ensaio geral. Caso foi participado ao Ministério Público.

Estreia cancelada após incidente nos bastidores

O espetáculo “Afro Saloyá”, da atriz e encenadora Isabél Zuaa, foi cancelado na noite da estreia, em Guimarães, após um incidente ocorrido durante o ensaio geral que levou a artista a denunciar alegadas ameaças e comportamentos racistas por parte de um elemento da direção técnica.

A apresentação integrava a programação dos Festivais Gil Vicente, uma das mais importantes iniciativas culturais do concelho vimaranense.

Segundo relatos da encenadora, a situação ocorreu durante os preparativos finais para o espetáculo, desencadeando um conflito que acabaria por culminar no cancelamento da atuação.

Discussão começou após incidente técnico

De acordo com informações divulgadas pela imprensa nacional, o episódio teve origem quando um microfone terá descido para o palco num momento não previsto da encenação.

Elementos da equipa artística alertaram para o facto de o equipamento estar a passar demasiado próximo da cabeça da encenadora, manifestando preocupação com a situação.

Pouco depois, segundo a versão apresentada por Isabél Zuaa, o diretor técnico da estrutura terá entrado no espaço de ensaio para confrontar membros da equipa.

A artista afirma que lhe foi exigido um pedido de desculpas dirigido à técnica envolvida no incidente, sob a alegação de que, caso isso não acontecesse, o espetáculo poderia não avançar por falta de apoio técnico.

Encenadora considera que houve discriminação racial

Embora reconheça que não foram utilizadas expressões racistas durante o episódio, Isabél Zuaa entende que a forma como foi abordada configura uma situação de discriminação racial.

A atriz sustenta que o comportamento adotado pelo responsável técnico não teria ocorrido da mesma forma se estivesse perante uma artista branca, considerando que a sua condição enquanto mulher negra influenciou a forma como foi tratada.

Na sua perspetiva, a situação ultrapassou um mero desacordo profissional e revelou uma postura que considera incompatível com os princípios de respeito e igualdade.

Público foi informado do cancelamento

Segundo relatos divulgados pela comunicação social, a própria Isabél Zuaa subiu ao palco para explicar aos espectadores as razões que motivaram a não realização do espetáculo.

A decisão de cancelar a apresentação gerou surpresa entre o público presente e trouxe para o debate questões relacionadas com discriminação, relações laborais e condições de trabalho no setor cultural.

A Oficina abre processo interno de averiguação

Perante as acusações, a cooperativa cultural A Oficina, entidade responsável pela organização dos Festivais Gil Vicente, emitiu um comunicado onde lamenta profundamente os acontecimentos.

A instituição garante que não tolera qualquer forma de racismo, sexismo, assédio ou discriminação e assegura que encara com total seriedade todas as denúncias desta natureza.

Na sequência da queixa apresentada pela encenadora, foi instaurado de imediato um processo interno de averiguação para apurar os factos ocorridos.

Caso segue para o Ministério Público

Apesar de referir que, até ao momento, não foram identificados elementos que permitam concluir pela existência de atos ou declarações de natureza racial, A Oficina decidiu remeter o caso para o Ministério Público.

A entidade considera que uma investigação independente permitirá esclarecer integralmente os acontecimentos e contribuir para uma avaliação rigorosa das circunstâncias denunciadas.

No comunicado, a organização solicita ainda celeridade na análise do caso e reafirma o seu compromisso com os valores da igualdade, inclusão, respeito mútuo e dignidade humana.

Cultura confrontada com debate sobre discriminação

O caso gerou forte impacto no meio artístico e cultural, colocando em destaque a discussão sobre práticas de discriminação, relações de poder e mecanismos de proteção no setor das artes performativas.

Enquanto decorrem os processos de averiguação internos e as diligências das autoridades competentes, permanecem por esclarecer todos os contornos do episódio que levou ao cancelamento de um dos espetáculos integrados na programação dos Festivais Gil Vicente de 2026.

A investigação agora em curso deverá determinar as circunstâncias exatas dos acontecimentos e eventuais responsabilidades dos intervenientes.

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