Ensino Superior em Portugal gera retorno elevado, mas famílias suportam peso desproporcional dos custos

Estudo revela que cada euro investido num diploma pode render 13,7 euros ao longo da carreira, mas desigualdades sociais e encargos familiares continuam a marcar o sistema

Um novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), desenvolvido por investigadores da Nova SBE, conclui que o ensino superior em Portugal continua a ser um investimento altamente rentável do ponto de vista económico, mas revela também profundas assimetrias no acesso e no financiamento do sistema.

De acordo com o relatório “Ensino superior e emprego jovem em Portugal”, cada euro investido num curso superior pode traduzir-se num retorno médio de 13,7 euros ao longo da vida profissional, um valor cerca de 68% acima da média da União Europeia.

Apesar deste elevado retorno, o sistema português continua a impor um peso significativo às famílias, que suportam cerca de 30% dos custos associados à frequência do ensino superior — mais do dobro da média europeia, fixada nos 13%.

Crescimento educativo histórico em Portugal

Nas últimas duas décadas e meia, Portugal registou uma transformação profunda no perfil educativo da população jovem. A percentagem de adultos com ensino superior quadruplicou, passando de 11% no final dos anos 90 para 43% em 2024.

Este crescimento tem reflexos diretos no mercado de trabalho. Segundo o estudo, entre um e dois anos após a conclusão do curso, 75% dos licenciados e 88% dos mestres já se encontram empregados. Portugal apresenta ainda uma das taxas mais baixas de inatividade entre diplomados na OCDE, situada nos 5,7%.

Retorno elevado, mas desigual entre áreas de estudo

Apesar da valorização geral do ensino superior, o estudo evidencia fortes disparidades salariais entre áreas de formação.

As áreas de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), Saúde e STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) destacam-se pelos rendimentos mais elevados. Em contraste, áreas como Educação e Serviços Sociais surgem na base da tabela salarial, com diferenças que podem atingir o dobro do salário horário face a cursos tecnológicos.

Origem social condiciona percursos educativos

O relatório sublinha ainda que o contexto familiar continua a ser determinante nas escolhas educativas.

Entre estudantes cujos pais não têm ensino superior, 47% seguem para o ensino profissional, enquanto apenas 20% dos filhos de diplomados optam por esta via. Já no acesso ao ensino superior, 76% dos alunos dos cursos científico-humanísticos prosseguem estudos, contra apenas 22% dos alunos do ensino profissional.

Segundo os investigadores, estes dados indicam que o sistema educativo pode estar a reproduzir desigualdades sociais em vez de as atenuar.

Famílias portuguesas sob maior pressão financeira

Embora os custos absolutos do ensino superior em Portugal não sejam dos mais elevados na Europa, o impacto financeiro sobre as famílias é significativamente superior.

O estudo revela que os agregados familiares suportam cerca de 30% dos custos totais, um valor muito acima da média europeia, o que representa um esforço particularmente pesado num país com rendimentos médios mais baixos.

Investigadores defendem mais apoios e melhor informação

Para mitigar estas desigualdades, os autores do estudo recomendam o reforço das bolsas de estudo e dos apoios sociais, sobretudo para estudantes em situação mais vulnerável.

Defendem ainda uma maior transparência na informação sobre empregabilidade e salários por curso, bem como um reforço da orientação vocacional no ensino secundário, de forma a permitir escolhas mais informadas e menos condicionadas pelo contexto socioeconómico.

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